Rio de Janeiro por Ricardo Romanoff

A cidade onde blush é sol em pó: lições de A Carioca

foto da capa: Ricardo Romanoff

Ser carioca é ter como programa não tê-lo, dizia um sabido poetinha. E não é preciso ter nascido entre o Leme e o Pontal para absorver imediatamente esse jeito de viver: basta colocar os pés no Rio para desligar um pouco da agenda e, sem dificuldade, abrir-se ao encontro casual. Foi mais ou menos assim que parei em um worskhop na Casa de Verão da Farm que, por sua vez, acolhia Tiago Petrik e Renata Abranchs – casal por trás da criação do guia de estilo A Carioca. Era sobre o livro que eles falavam, mas não apenas. Desvendavam, pelo modo de vestir, a personalidade da cidade mais icônica do Brasil.

As cariocas Gabriela Monteiro e Milena Galli e a síria Aiaa, entrando no clima (fotos de Thiago Patrik e Juliana Rocha) __ rioetc.com.br

As cariocas Gabriela Monteiro e Milena Galli e a síria Aiaa, entrando no clima (fotos: Tiago Petrik – 1 e 2 – e Juliana Rocha) __ rioetc.com.br

O mapeamento de moda capitaneado pela equipe do Rio Etc abrange principalmente a Zona Sul do Rio – porque, como brincou Renata, “um carioca mapeia até onde o braço alcança”. Segundo os coordenadores do projeto, tratou-se também de uma escolha que soa quase poética: é por ali que se dá, de fato, o encontro. Algo que pelos lados da Barra não acontece, pois o bairro é feito de um urbanismo anticarioca (não à toa, planejado por Lucio Costa, o mesmo que desenhou uma segregada Brasília). O Rio que o guia procura é aquele “onde a convivência faz com que uma pessoa se dilua na outra” – disse Tiago (ou seria Renata? A tal diluição confunde até mesmo a plateia).

Os amigos paulistanos Alexandre Palo (fotógrafo) e Ju(?) Maschietto incorporando o Rio de Janeiro

Pra ter alma de carioca não é preciso nascer no Rio de Janeiro, como provam os flagras do paulista Alexandre Palo em sua conterrânea Ju Maschietto

A intimidade das cariocas com a estética do calor é imensa: “nossa cidade é orgânica e acaba criando um código visual que se reflete diretamente na beleza das mulheres”. Para a carioca, não é difícil se adaptar ao meio. Intuitivamente aquelas garotas se mimetizam no espaço, bagunçam ou arrumam o cabelo, andam com ares de princesa ou “se perigueteiam” quando precisam. A maquiagem arremata a produção e leva às faces um clima que quer se impor nos 12 meses do ano: “para a carioca, blush é sol em pó”, diz Renata.

Marianna Ferolla por Thiago Petrik; Julia Oristanio e Betina de Luca por Juliana Rocha (rioetc.com.br)

Marianna Ferolla por Tiago Petrik; Julia Oristanio e Betina de Luca por Juliana Rocha __ rioetc.com.br

Todo esse sotaque carregado foi parar diretamente no guia A Carioca, inspirado no A Parisiense de Inés de La Fressange. Ilustrado por Bruno Drummond, o livro transborda um dos estilos de vida mais desejados do Brasil e, de quebra, ainda conta com QR Codes que direcionam os celulares para playlists escolhidas a dedo. A maior graça do livro, porém, é o efeito que ele causa em quem se reconhece nas páginas cheias de fotos solares e ruas impregnadas de alma. Cariocas da gema ou de coração, todos gostam de saber que Carlinhos Niemeyer tinha razão quando dizia que quem nasce no Rio já vem com meio carnaval andado.

Isabel Svoboda em foto de Juliana Rocha __ rioetc.com.br

Isabel Svoboda em foto de Juliana Rocha __ rioetc.com.br

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