Retrato em Cores de Cris Lisbôa

Retrato em Cores de Cris Lisbôa

A primeira frase de um texto é como um “pé na porta”: precisa chamar a atenção do leitor, dar-lhe um susto. E é também uma das lições iniciais que Cris Lisbôa, autora de livros como Nunca fui a garota papo firme que Roberto falou, Duas pessoas são muitas coisas e Papel Manteiga, dá em suas aulas de escrita criativa. Gaúcha de Uruguaiana, aos 18 anos levou as palavras para amadurecer em São Paulo e aos 31 tranquilizou-as em Porto Alegre, cidade onde fez uma casa.

Cris Lisbôa

Entre cômodos repletos de móveis antigos, Cris recebe alunos que a fizeram pensar sobre o ato de escrever. Transformou o próprio apartamento na sede do curso Go, Writers!, imaginando que ao mostrar um universo pessoal incentivaria os alunos a procurarem seus próprios. Inspiração, afinal, diz ela, está dentro de cada um. “Escrever é solitário, das poucas profissões em que não cabe um ajudante. Eu ainda morro de medo de começar um livro.

Ao mostrar os objetos mais queridos da casa que divide com a irmã, uma gata e um cachorro, Cris trata com gentileza as lembranças. Nunca, porém, em tom melancólico. É leve e bem humorada, como seus leitores muitas vezes não imaginam: “Dizem que pelos meus livros eu pareço ser muito mais velha, uma mulher de alma pesada ou melancólica.” Acha graça e ri, ri alto. Mal sabe que assim explica na prática aquela lição de começar um texto como quem coloca o pé na porta. Risada é a primeira – e marcante – frase da escritora de sobrenome Lisbôa.

{O retrato de Cris é feito a partir de objetos que contam histórias e definem uma personalidade. Juntos, eles formam a cartela de cores da escritora que tem a casa e o coração pintados em tons quentes.}

Cris Lisbôa

// mural de inspirações

Toda vez que eu faço um livro novo, começo por um mural com inspirações que vou usar no momento da escrita. O próximo livro se chama Das tuas horas que não são minhas e é sobre a minha tia avó, de apelido China e nome Marina Lisbôa. Ela tinha uma irmã gêmea e uma mancha enorme no rosto. Uma vez, na adolescência, apaixonou-se por um cara e ele disse: “Se fosse para ficar com uma das irmãs, ficaria com a que não tem uma mancha”. Ela voltou para casa e de lá nunca mais saiu, apenas aos 102 anos para ser enterrada.

A casa dela fica ao lado de onde minha avó paterna morava. Toda a família fazia visitas e ela guardava tudo que lhe dávamos, de fotos a arranjos de mesa das festas. Há pouco tempo convenci uma tia a ir na casa (que ficou intocada depois da morte de China) e peguei muitos diários e fotos. E ainda me dei conta de algo que nunca tinha percebido: todos os cômodos eram cheios de espelhos. Armários antigos de madeira completamente revestidos de espelhos. Ela passou a vida inteira se olhando.

Agora no mural de inspirações tenho frases que quero usar neste livro, fotos antigas de Uruguaiana, um retrato de Simone de Beauvoir, imagens de mulheres que para mim representam minha tia. E em destaque ficam as palavras que abrem a nova história: “Preciso que tu conheças todas as palavras que não direi”.

Cris Lisboa

// livros

Há alguns livros para os quais sempre volto. O Poder dos Mitos, de Joseph Campbel, que é o que eu mais uso. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, do Marçal Aquino, é um dos livros mais lindos da minha vida e para onde retorno porque gosto das palavras que ele usa – quando terminei de ler, pensei: “Que sorte que este escritor ainda está vivo!”. Tem um da Ana Maria Machado que se chama Canteiros de Saturno, que li enquanto fazia a oficina do Assis Brasil e me ensinou o que era um romance. Gosto muito também Do amor de outros demônios, do García Marquez, um autor que sempre leio. 

Cris Lisbôa

a famosa estante onde organiza livros por cores

Agora os alunos poderão levar os livros emprestados (a não ser pelos autografados, que nunca poderia repor em caso de perda!). Tive que aprender a me desapegar, pois não gostava nem que tocassem nos meus livros. Há pouco tempo estava lendo e pensei na quantidade de obras que eu tenho, que tinham virado objeto de decoração – o que é muito triste para um livro. Por isso decidi que vou emprestá-los e agora eles vão passear por aí e cumprir aquela frase que nunca sei se é do Borges ou do Mário Quintana: “Os livros não mudam o mundo, só mudam as pessoas. São as pessoas que mudam o mundo”.

// cadeiras de cinema, mesa aranha e flores

Não me importo muito com os móveis. Comprei quase todos no Mensageiro da Caridade, que é um lugar de usados com peças muito baratas.

Cris Lisbôa

As únicas coisas de que não abro mão são as cadeiras do cinema do meu pai em Uruguaiana e uma mesinha aranha que eu sempre quis ter. As flores eu compro na feira do parque da Redenção, onde faço compras todos os sábados. É uma feira de orgânicos e por isso as flores da minha casa sempre variam durante o ano.

// quadro com parágrafo de livro

Cris Lisboa

Trabalhei uns meses em uma agência de Porto Alegre e na festa de fim de ano teve um amigo secreto entre todas as equipes. Todo mundo tinha que enfeitar uma camiseta para dar de presente. A menina que me tirou conhecia meus livros, entrava todo dia no blog. Ela escreveu o conto de que mais gostava na camiseta. E me deu. E eu chorei. E enquadrei. E, sinceramente, ainda me espanto em saber que não estou falando sozinha.

Cris Lisbôa

// Leia a Cris

_ Biblioterapia, no site da MTV > aqui
_ Blog da Cris > aqui
_ Livros: Nunca fui a garota papo firme que Roberto falouDuas pessoas são muitas coisas e Papel Manteiga, entre outros.

Texto/entrevista: Raquel Chamis | Fotografias de Carine Wallauer | Direção de Arte: Laura Del Rey

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