Sobre fazer o que se gosta: Hélio Leites, anarquiteto do sonho

Sobre fazer o que se gosta: Hélio Leites, anarquiteto do sonho

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De repente passa um cara que tinha me ouvido dizer que quem está desempregado está procurando serviço no lugar errado. Ele esperou todo mundo que estava empregado ir embora e me perguntou onde deveria procurar. E eu disse: dentro da gente. Quando se procura dentro da gente acontece uma coisa incrível: sempre se acaba fazendo o que gosta. Fazer o que a gente não gosta é o pior desemprego do mundo.”

helio-leites-4Já mal consigo me lembrar de como encontrei, há alguns anos, o vídeo do artista-artesão Hélio Leites feito pelo Coletivo Centro, do Paraná. Na época, começava a notar que minha primeira decisão séria da vida adulta (uma hoje incompreensível faculdade de direito) tinha sido tomada do avesso. Talvez por isso tenha reconhecido no curitibano de óculos quebrados – que ao falar enrolava sem parar os cabelos brancos nos dedos – um pouco de mim. Ao passar meus dias em um trabalho de que não gostava, eu era uma desempregada no pior sentido da expressão.

O projeto que concebeu o vídeo de Hélio Leites partia da pergunta “o que é tristeza pra você?”. Direcionada a artistas, gerava as mais diferentes respostas. Mas todas, de um jeito ou outro, apontavam para um caminho otimista. “Tristeza em certo sentido até que é boa: ela faz ver coisas que a alegria não deixa ver”, sintetizou o artesão na época. Economista de formação, Leites deixou o trabalho de mais de 20 anos em um banco para fazer obras que são miniaturas da vida – “sermão aos peixes na lata de sardinha” e outras séries de histórias que cabem em botões e caixas de fósforos. Assim ganhou, de ninguém menos do que o poeta Paulo Leminski, o cargo vitalício de significador de insignificâncias.

O artesanato de Leites viria a servir de metáfora para o que eu então começava a perceber: não há problema algum em se reduzir escalas. Tudo bem trocar uma grande instituição – como era meu caso no Ministério Público – por um recomeço completamente novo e, sim, pequeno. O curitibano mostrava, com suas criações que soam quase como engenhocas malucas, que cada pessoa é o mundo espremido, cada trabalho simples é importante como qualquer outro considerado grande. Se a vida pode ser representada em uma caixa de fósforos, há sinais evidentes de que as pequenas coisas feitas com cuidado podem também ser plenas de sentido.

O artesanato é um treino para o meu diálogo com a humanidade. A banca da feira é meu palco: a humanidade inteira passa ali – às vezes passa o triste, noutras o desempregado.”

Ser um anarquiteto do sonho – outro título que Leites revelou possuir em entrevista a Antônio Abujamra – também contém em si uma mudança de proporções. Enquanto o arquiteto prevê, planeja e deseja resultados, há quem não consiga ser linear. A anarquia é bem mais presente em nós do que imaginamos, e na maioria das vezes não se coloca no sentido político do termo: é anárquico quem sabe que o amor se acomoda num apartamento e não numa grande cerimônia para os outros, é anárquico quem se nega a permanecer no plano A quando é o B que anda mais natural. O bonito em mudar de profissão é que no início – e isso é inevitável – as conquistas são muito pequenas. E, exatamente em função do tamanho reduzido, essas alegrias não gritam: precisam ser descobertas (bem como disse Rita Pires, outra artista do projeto paranaense, explicando suas miniaturas).

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Olhar para dentro da gente é difícil quando o ensinado é sempre olhar para fora: o mundo, o sucesso, o reconhecimento dos outros. A sorte é que quando mudamos a escala de prioridades o que se enxerga dentro é também um universo vasto – porém condensado e espremido: uma miniatura. Hélio Leites tinha toda razão quando dizia que colocar um aparelho que pisca, que ri e que chora para trabalhar no que não gosta é um desserviço para o espírito. Talvez não seja necessário deixar uma vida de economista para fazer arte em latinhas, como ele. Mas ser um pouco mais quem se é – no trabalho oficial, colocando em prática um projeto ou simplesmente achando tempo para um hobby – faz da vida um lugar bem mais confortável para se viver. Recomeçar a vida do zero é colocá-la numa embalagem menor. Mas, dessa forma, fica bem mais fácil levar o que nos importa para qualquer lado – o amor, o entusiasmo e a curiosidade passam a caber em um potinho.

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Texto inspirado no vídeo O que é tristeza pra você, com Hélio Leites, do qual extraímos as fotos 1 e 4 publicadas neste artigo (frames).

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