Para onde vão as memórias? Leonilson e a cartografia do afeto

Para onde vão as memórias? Leonilson e a cartografia do afeto

Em que medida os objetos cotidianos podem contar a história de uma pessoa? Com quantas coisas guardadas, abandonadas ou esquecidas nos armários e gavetas se reinventa uma vida?”

Com este questionamento, Maria Esther Maciel abriu o texto O Inventário dos Dias: notas poéticas de Leonilson, que integra o catálogo da exposição que o artista fez ano passado na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre. Virou também meu ponto de partida para tentar escrever sobre uma dor na tentativa de convertê-la em algum conforto. Afinal, pensei eu, as memórias de uma pessoa querida que parte devem ir para algum lugar. Um lugar simples e bonito como um bordado feito por Leonilson, o tal artista que costumava arquivar lembranças.

Antes de falar sobre a obra desse cearense, me explico: tenho duas melhores amigas que são irmãs. Na semana passada, elas perderam o pai. Não demorei a pensar em como seria reconstruir a vida diante de um machucado assim tão grande. Foi então que me lembrei de uma história da minha família que talvez servisse para todas as famílias, especialmente a delas. Minha mãe perdeu o pai dela um mês antes de eu nascer, de modo que nunca o conheci. Porém, por estranho que possa parecer, meu avô sempre fez parte do meu imaginário – o que, de certa forma, me dá a nítida impressão de conhecê-lo mais do que muitas pessoas com quem eu convivi. O segredo disso, hoje eu avalio, está na forma delicada como minha mãe sempre tratou a memória dele. Ela criou um manto de histórias que foi costurado com fotos, roupas, objetos e cartas. Um inventário, no sentido mais interessante da palavra.

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Foi no texto de Maria Esther sobre Leonilson que descobri um sentido que eu jamais tinha atribuído a inventário. Mais do que uma lista de bens deixados por alguém, a autora vê uma afinidade da palavra com invento e invenção. Um inventário de memórias, assim como o feito por minha mãe para manter meu avô um pouco mais próximo de mim e do meu irmão, nos deu um arsenal de referências afetivas. E criamos, a partir daí, nossas próprias histórias sobre ele – uma maneira pessoal de imaginá-lo. Muitas vezes me peguei pensando em como seria minha vida se eu tivesse convivido com ele. Mas, de certa forma, eu sei bem. Sempre tive cuidado com essas lembranças da minha mãe e, portanto, de certa forma meu avô também existiu para mim.

Por isso fiquei feliz em lembrar da obra do artista Leonilson. Ao arrecadar pequenos fragmentos do cotidiano, ele compunha uma autobiografia diária e um painel de todo o tempo que dedicou a observar o mundo. Juntava anotações em diários, tíquetes de cinema, bilhetes, o que fosse – e assim catalogava o viver. As coisas prosaicas foram se convertendo em palavra, em bordado, em poesia. E criaram o que alguns autores chamaram de uma cartografia do afeto.

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Leonilson fazia esse movimento para constituir as lembranças da própria vida, com o desejo de arquivar seus percursos e deslocamentos – era um processo artístico. Tecia, costurava tecidos, desenhava com linha. O mesmo acontece (ainda que sem uma obra de arte como resultado) quando tomamos essa iniciativa de juntar as lembranças de outra pessoa. Seus objetos remetem não apenas ao que realmente vivemos com ela, mas também às histórias que gostaríamos de ter vivido. E assim, entre memórias verdadeiras e inventadas, o espaço dos vazios e das dores vai ficando um pouquinho menor: os machucados se acomodam.

leonilson-2Sobre o peso dos meus amores
Eu vejo a distância
Eu vejo os atalhos
Eu vejo os perigos
Eu vejo os outros gritando
Eu vejo um
Eu vejo o outro
Não sei qual amo mais
Sob o peso dos meus amores

Acho que logo que algo tão triste acontece a sensação é de, nas palavras de Leonilson, se estar sob o peso de um amor. É o tempo e o manejo das lembranças que faz com que aos poucos o “sob” vire “sobre”. Viver sobre o peso de um amor – de pai ou de mãe ou de irmão ou de amigo ou de namorado ou de quem quer que seja – é fazer desse sentimento um suporte. Ou, quem sabe, um tecido todo bordado com as miudezas do cotidiano, as pequenas alegrias, os segredos: esse amor torna a realidade mais confortável. Acho que aconteceu assim com a minha mãe. E é assim que eu tenho certeza de que acontecerá com as minhas amigas quando a tristeza se distrair. E quem não se distrai?

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