Letuce

Letuce

Vi/ouvi Letuce pela primeira vez no Música de Bolso, fazendo Seresta Quentinha. Fiquei impressionada de cara, mas acho que estava num daqueles momentos de ‘viagem pela internet’, sem muito foco, e acabei não pesquisando mais sobre o grupo. No entanto, por alguma razão, eles ficaram na minha cabeça. A ponto de, quando sentei, pouco mais de um mês atrás, para pensar um primeiro perfil “doravante” a postar no site, eles terem sido a minha primeira ideia. Por sorte, já tinha uma apresentação da banda marcada em São Paulo, no Beco, próxima à data da minha decisão, e lá fui eu de mala e cuia, fotografar e tentar uma entrevista no pré-show.

soluço também passa quando você não bebe água

soluço também passa quando você não toma susto

soluço também passa quando ele………………………………………………………………………………….. fica a fim

Extremamente tranquilos e receptivos, Lucas e Letícia me receberam no camarim, junto a amigos e os demais músicos do grupo, para uma conversa rápida registrada no meu gravador. Ele, já pronto; ela ainda experimentando calçados para usar com sua calça-sereia (acabou indo ao palco descalça). Eu, marinheira de primeira viagem em entrevistas, havia me preparado com apenas uma tarde de (deliciosa) pesquisa sobre eles e algumas questões. Poderia ter imaginado, claro, pelo carisma dos meus interlocutores nos vídeos que andam por aí, que a qualidade da entrevista não precisaria ter sido uma preocupação, pois independentemente do meu desempenho (e timidez), eles teriam o que falar – e com a leveza, abertura e simplicidade que transparece nas coisas deles que circulam pela internet.

__ 2012-2013

O segundo disco da dupla aconteceu via financiamento coletivo e foi lançado no início de 2012, segundo a mesma trajetória aclamada do primeiro álbum, de 2009. Conversamos um pouco sobre como andou a carreira deles, do lançamento de Manja Perene pra cá, e também sobre os principais planos para 2013.

Letícia_ Eu acho que esse ano foi um ano que eu escrevi mais, fiquei mais concentrada na literatura. Claro que a música também, a gente fez bastante show, mas eu li muito, escrevi muito. Tô escrevendo uma peça com o meu amigo, que até tá na banda, o tecladista (Arthur Braganti). Eu sempre gostei de escrever, mas esse ano (2012) eu dei uma embarcada. Continuo fazendo stand up, continuo fazendo umas loucuras de vez em quando, mas esse foi o ano da literatura pra mim, de eu achar esse lugar. E o Lucas cada vez mais tá fazendo mais trilha sonora. Esse ano ele fez uma trilha sonora de um programa de folclore da TV Brasil, tá fazendo um outro longa agora…

Lucas_ Tô fazendo trilha de cinema direto, que é uma maravilha. Trabalhando mais em estúdio. Tô produzindo artistas, levantando repertório de artistas… gravando os instrumentos, também, dos tracks dos artistas que me pedem pra produzir. É recente que eu tenho esse estúdio e agora tá pintando esse tipo de trabalho. Eu fiz também um disco inteiro de músicas autorais, que eu não fazia faz tempo. Ainda não gravei, só compus, tô gravando… mas finalmente tive tempo pra isso, pra decupar coisas minhas antigas. A gente já tem várias músicas de disco novo, também, porque, no decorrer do ano, com várias viagens acontecendo, você acaba tendo um tempo ocioso bom, na estrada… e isso produz coisas, você compõe coisas. Então, também, pro ano que vem, um disco novo da Letuce com certeza.

Laura_ Pro ano que vem (2013) já?

Lucas_ Com certeza.

Letícia_ Não sei, mas…

Lucas_ Eu garanto. Tá anotado.

__ Letuce e a boa aceitação na internet

Sempre me chamou a atenção que, corajosos como são e com a vida amorosa tão em foco, Letuce tivesse a aceitação quase unânime que me parece ter, mesmo nessa central de crítica anônima e violenta que é a internet.

Lucas_ Eu acho que, pro tanto que a gente aparece e pro tanto que a Letícia se comunica nas redes sociais, a gente tem uma recepção boa mesmo. Sempre tem um psicopata ou outro, mas…

Letícia_ Mas esse ano foi bom por uma coisa. Eu fazia uma coisa que todo mundo acho que faz… que é procurar o nome da própria banda no Google, essas coisas. Esse ano eu parei, em julho. Porque você (Lucas) e o André Dahmer ficavam dizendo: “Você é maluca!”. Eu, às vezes, quando a pessoa pegava pesado ou falava alguma coisa que não tinha a ver com a música… porque achar a minha música chata, OK, mas quando a pessoa pegava pesado tipo “ela é anoréxica”, sendo que eu como 1 kg no buffet, aí eu pensava: eu preciso falar. E o André até contou pra gente uma história do Marcelo Camelo; que quando algum jornalista esculacha muito ele, alguma coisa assim, ela faz um e-mail, um desabafo… e não manda. E eu não, eu mandava. Mas esse ano, de julho pra cá, eu parei de procurar meu nome na internet. Não é isso que importa. O que importa é quem realmente gosta de mim.

Lucas_ O que importa é a gente fazer o que a gente acha bonito.

Letícia_ É claro que não é completamente liso, mas acho que a gente, em geral, tem uma aceitação legal, sim.

Lucas_ Acho que é porque é feito de um jeito real, sabe? Nosso trabalho tem uma realidade. É a nossa vida. É expositivo, mas é um lugar que não dá pra gente vestir uma máscara, fazer um tipo. As coisas que acontecem entre a gente viram música e nosso som não é determinantemente blues ou rock ou alguma coisa. A gente faz a música na hora, como ela ficar boa. O arranjo dela é uma coisa muito subjetiva, pode mudar muito. Acho que isso dá uma curiosidade, o show não ser sempre igual… acho que isso conta a favor, também. As pessoas comentam que foram, por exemplo, num show, e algo de diferente aconteceu, um arranjo novo ou alguém subiu no palco e não estava previsto ou… e isso dinamiza a coisa. A gente não faz bis nunca, não tem essa. A gente faz um show enterrado e foi e um abraço. Isso desenrola o show de um jeito diferente.

__ Sobre os vídeos

Chamam a atenção a quantidade e a criatividade dos vídeos postados pela própria banda na internet, nos dando uma série de imagens insólitas, divertidas e amorosas para assistir enquanto ‘escutamos as músicas no YouTube’ à espera de um novo show. Quis saber da onde vem tanta ideia, quem cuida disso…

Letícia_ Isso foi porque eu tinha um ócio absurdo em casa e eu sempre gostei de ter máquina de filmar; máquina de fotografar, só que podendo fazer vídeo. E eu sou muito… adoro memória, sou muito memorialista, adoro as minhas coisinhas… eu não jogo fora minhas agendas de 16 anos. Então imagina: eu tava lá, conhecendo o Lucas, me apaixonando, então tudo era motivo de “ai, vou filmar ele andando de skate”, “vou filmar as formigas fazendo uma carreirinha das folhinhas”. E aí um dia eu pensei: nossa, tenho tanto vídeo legal… vou botar isso pra jogo.

Lucas_ Tenho um monte de disco legal e fiz um disco…

Letícia_ E foi muito natural: por quê ficar esperando um cineasta ou um edital? “Não, vou fazer sozinha” – e aí fiz sozinha. Até a minha videolaringoscopia… eu falei: gente, isso é muito maravilhoso! – e aí fiz um vídeo disso.

Lucas_ E, coincidentemente, o YouTube é o lugar onde mais se escuta música no mundo e, se você tem um vídeo maneiro, em que acontece uma coisa bizarra… vem um elefante e roda ou sai água da cabeça de alguém…

Letícia_ Melhor do que deixar ali a foto da capa, né?

Lucas_ Se for um vídeo mais bacana, vai gerar mais curiosidade. E é a Letícia que edita, faz a maioria das filipetas. Eu às vezes desenho, sou mais ilustrador. Mas é ela que, em geral, filma e edita.

__ O namoro e o processo composicional

ser você, aceitar você / dizer sim, encontrar você

Última faixa de Manja Perene e composição de André Dahmer, Ninguém muda ninguém chegou, coincidentemente, no e-mail do casal em um momento de briga por um jogo de xadrez (“eu não sei perder, ele só sabe ganhar…”). Perguntei a pergunta óbvia: como fica no dia a dia a relação e a composição, a composição e a relação?

Lucas_ A gente conversa muito, a gente é muito mental na hora de brigar, também. E acho que a gente desenvolve o lado mental meio que pra esvaziar esse lugar meio odioso da briga e ficar com outros. Mas eu sinto que nas músicas novas, do próximo disco, já vem algumas indiretinhas da Letícia pra mim. Ela fez uma música assim: “dá pra você morrer só um pouquinho?” / pequenas horas que salvam / o amor é dos espertos”. Isso é uma música meio de DR (discussão de relação), mas é bonita.

Letícia_ Gente, é que a minha analista que falou essa frase, até! Numa relação de amor você sempre pensa: “ai, morre só um pouquinho, daqui a pouco volta”, né? E aí eu pensei: nossa, quantas vezes eu não penso nisso?

Lucas_ Claro, quantas vezes eu já quase não te matei? Mas eu tenho medo da cadeia, tenho medo de ir preso.

Letícia_ Mas é normal e saudável, a gente tá fazendo cinco anos de namoro, a relação vai mudando e as letras das músicas também vão mudando, mas super tranquilo. E acho que a composição é além disso, é arte, inspiração; não é “ai, vou fazer uma indiretinha pro Lucas”, você tá viajando (risos).

Lucas_ Tô brincando, imagina. A composição é a decantação máxima do nosso relacionamento, da análise do nosso relacionamento. Ele não é mais mental, ele vira artístico, vira transcendente – e aí já tá resolvido. Só vira uma coisa transcendente porque “DR-camente” já está resolvido.

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