Miranda July e as maneiras de viver no tempo

Miranda July e as maneiras de viver no tempo

Há alguns dias li uma entrevista com a artista norte-americana Miranda July. Mesmo sem ter lido o livro O Escolhido Foi Você, o segundo dela a sair no Brasil, me chamou a atenção a primeira informação do texto: quando criança, ela tinha uma pasta intitulada Maneiras de voltar no tempo/Entrar em outros mundos. A vontade de interferir nessa inevitável passagem de horas, dias e anos foi uma constante em sua vida. Autora de uma série de performances e filmes, buscou maneiras de viver o tempo presente e não pensar no passado ou temer o futuro. De certa maneira, obrigava-se a fazer algo que não acontecia naturalmente.

Como quase todas as pessoas, eu também tenho um certo medo do tempo. E, mais do que isso, me preocupa a parcela enorme de momentos que eu dedico a pensar adiante – ou em situações quase ficcionais do que eu poderia estar fazendo agora e, obviamente, não estou. Sonhar com os pés no chão e sentir falta dessa conexão com a realidade me levou à identificação imediata com o temor de Miranda July.

Miranda July

Miranda em frame de seu novo filme, O Futuro (The Future)

Ainda mais quando descobri que ela se propôs, no preparo do livro O Escolhido foi Você, a entrevistar dez pessoas totalmente desconhecidas. Elas tinham, por alguma razão, colocado anúncios no PennySaver, um folheto de classificados distribuído nos Estados Unidos. Queriam comercializar itens como jaquetas ou cartões de Natal, o que fosse. Em comum, tinham (como todas as pessoas deste mundo) uma bagagem de memórias, frustrações, alegrias. Tudo que, contado e ouvido de forma generosa, é capaz de nos conectar.

Fui procurar as entrevistas porque não queria esperar pela entrega do livro. Acabei encontrando algumas delas disponíveis no site da New Yorker, bem como vídeos da própria autora contando sobre essa relação criada entre duas pessoas. Bem disse July: ao entrevistar é preciso estar no presente com o outro. Ligando essa experiência a uma espécie de performance, ela se deu conta de que uma entrevista é um fragmento de vida real. E que quando um diálogo é guiado por interesse genuíno é praticamente impossível não sair dele com algo significativo.

Miranda

Miranda mostra que a palavra dividida é dos instantes mais essenciais entre duas pessoas. Quando um se coloca disponível para perceber as particularidades do outro – assim como reconhecer suas semelhanças – efetivamente cria uma conversa de verdade.

E esta é, mesmo para quem não lida com arte como Miranda July ou Marina Abramovic (o fenômeno atual das performances), a forma mais fácil de se viver o tempo presente. De ouvidos abertos, contemos a resistência natural à vida que passa: estamos dentro dela, atentos por mais tempo do que o sonho permitiria.

icone Para conhecer mais:

+ O Futuro, para Nowness __ ler artigo

+ Michael. Large black leather jacket. Hollywood para New Yorker __ ler artigo

+ Porta Voz do Extraordinário. BRAVO! __ ler artigo

OBS.: A foto de capa do artigo é do incrível fotógrafo Daryl Peveto.

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