Mister Lúdico apresenta: Zunha de Violeiro

Mister Lúdico apresenta: Zunha de Violeiro

Quando criança eu visitava / Casa que minha avó morava / Era de barro e tinha um nome
Chamava “casa da avó amada” / Colocava nóis na sala / Apagava o lampião / E história nos contava
Falava sobre os mito / Do folclore brasileiro / Que se perdem entre os milhares / Que vem lá do estrangeiro
Dizia pra gente crescer sabido / Valorizar o que é coisa nossa / A viola e nossa história
Então é isso, meu irmão / Não deixe as coisas como estão / Não é nosso esse “tar” de Halloween
Dia 31, o dia do Saci!

Aos 28 anos, Mister Lúdico, músico, ator e ex-elenco do Quinta Categoria, na MTV, lança seu primeiro disco solo, o álbum Zunha de Violeiro.

A faixa Não é nosso esse “tar” de Halloween, que já fora apresentada no programa Agora é Tarde, do Danilo Gentili, desponta agora no Sound Cloud do artista como favorita do público e traz o primeiro solo do artista com a viola caipira. O trabalho mostra um pouco do que vem pela frente no disco: composições próprias, brasilidade e – aqui menos, em outras músicas muita – crítica social. Tudo isso envolto em um clima brejeiro e figurinos tric tric. Parece muita coisa? E ainda faltou falar de gaita, boxe, pilates, suco verde, alimentação viva, Itanhaém… se deixar, não falta assunto e atividade pro entusiasmado Mister Lúdico.

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entrando no clima da sessão de fotos

São Paulo, a música e a viola

Eu vim pra São Paulo em 2006, com algumas músicas na bagagem, e aí montei a banda Mister Lúdico & os Morféticos, que foi até 2010. Depois disso, achei ter banda meio trabalhoso. Eu ainda toco bateria, hoje em dia, com um trio, mas a gente faz coisas muito mais despretenciosas. Pra compor, eu comecei a trabalhar sozinho mesmo – e a desenvolver a minha viola caipira. Quando ganhei a viola, eu ainda trabalhava na MTV. Apareci com ela lá e os caras gostaram muito! É bem comum que, quando eu falo que vou tocar viola, as pessoas riam… mas depois elas até choram, eu sinto que a viola toca fundo em todo mundo. Acho que traz lembranças de sítio, avô, avó… No começo [do aprendizado], eu via muito o Tião Carreiro, imitava os movimentos dele no ar, andando na rua… música é bem isso: sentimento e técnica. Se você tem sentimento, você não perde o beat… porque você tá ondulando junto com a música.

As pessoas às vezes pensam: “esse cara tá falando sério ou ele tá sendo um palhaço?”. Eu tô falando sério, mas com jeitinho, de forma mais amena. Esse é o lance da arte, o lance do Lúdico: pra bom entendedor, meia palavra basta.

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fotografias: Laura Del Rey

O corpo

Desde que eu era jovenzinho, eu achava boxe muito interessante. A minha lembrança mais antiga é aquela luta do Maguilla, em 88-89, quando ele perdeu pro (Evander) Holyfield. E um bolo que a minha mãe fez.

Eu e o meu irmão do meio aniversariamos perto e a nossa festa costumava ser uma só. Aí teve um ano que minha mãe fez a decoração do bolo com o tema boxe: um de nós tinha a luvinha branca e o outro a luvinha preta. E eu pedia sempre a luva de verdade pra ela, mas ela nunca que ia dar! Ela só aceitava judô e olhe lá.

Passou o tempo e uns três anos atrás encontrei uma amiga de Itanhaém em São Paulo – e ela estava treinando boxe. Fui e comecei também: encontrei meu esporte. Mas eu também corro, quando estou na praia, gosto da yoga e dos ensinamentos que traz sobre o corpo e a alimentação… e  gosto muito de pilates também. Joseph Pilates era um grande pensador. [muito em breve, no Doravante, teremos vídeo do Mister Lúdico ensinando a incrível receita do suco verde!]

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Papagaio

Se eu tivesse um zíper no meu corpo, me trespassando de cima até em baixo, e você abrisse, ia sair um papagaio de dentro. Porque eu não fico por aí assegurando as minhas verdades: eu reproduzo o que é de bem comum, me comparo com o que existe ao redor. Eu gosto de me instruir, me conectar com a natureza e tentar viver o máximo possível de acordo com as leis naturais. É o que o Joseph Pilates diz: o homem tira o conhecimento da Terra, a Terra tira do espaço, o espaço tira do cosmo infinito – e assim por diante até chegar àquela inteligência plena.

Doravante

Meus próximos passos são lançar este CD, fazer shows, emplacar algumas coisas na TV e na internet – tanto pra escrever quanto pra atuar – e juntar dinheiro pra comprar uma chácara. Quero ter uma plantação orgânica e um jipe – e aí eu faço um cartão legal e vou com o jipinho vendendo os meus produtos nas feiras orgânicas.

Nessa chácara pode até ter um estúdio, internet… seria um caminho legal. E tocar bastante pelo Brasil. Eu tenho muito fã, muita gente querida que gosta de mim no Ceará, na Bahia, em Curitiba, em Brasília… Espero fazer todo esse itinerário e seguir passando informações de forma lúdica.

Zunha de Violeira, por Laura Del Rey

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Comentários do artista sobre as faixas do disco Zunha de Violeiro:

1. TEX foi uma figura paterna na minha infância, com quem aprendi valores morais, éticos e cíveis.

2. Mais Petróleo retrata a minha falta de felicidade em ver que os bens materiais e os recursos naturais do mundo são divididos de uma forma tão injusta e desproporcional.

3. Virtualidade Celular. Essa música fala sobre coisas bizarras, como por exemplo a máquina através da qual as pessoas transam à distância. Essas e outras coisas que as pessoas vão fazendo no mundo virtual e deixando de exercitar com o corpo. Então eu conto a história de um casal que começou o relacionamento pela internet e terminou o namoro por ali mesmo, sem nunca ter vindo “pro lado da pracinha”.

4. Em Savanna eu falo sobre os animais e a falta de consciência nossa no equilíbrio que precisamos ter com eles.

5. Blues do gato veio depois de um sonho que eu tive com alguns seres me mostrando uma nova afinação da viola e do violão. Aí um amigo me deu uma capinha de isqueiro de metal e eu comecei a tocar com ela. A música fala sobre as pessoas que vem pra São Paulo como retirantes e tem que tentar a vida por aqui. Fiz essa analogia com um gato de rua, um animal que é pouco visto pela sociedade.

Mister_Ludico_36. Reconfigurar o Pará eu fiz em homenagem à resistência dos povos indígenas em Altamira contra a execução da obra de Belo Monte, contra esses latifundiários que ainda dominam boa parte do nosso país, como num velho oeste.

7. Nrsimhadeva é o nome de um dos aspectos plenamente qualificados com as opulências místicas absolutas do senhor Krishna. O big-bang dessa composição aconteceu quando eu fitava uma imagem do senhor Nrsimhadeva que havia pedurada na parede do meu quarto e pedi com humildade uma inspiração para adaptar as três notas tônicas que sabia do mantra tocado no templo – e pumba!, o som começou a sair dos meus dedos muito naturalmente.

8. Não me Irrita foi numa época em que comecei a analisar que todas as pessoas que namoram, ao acabar um relacionamento, tem o mesmo tipo de história, parecida. Eu fiz pensando em dar pro Zezé di Camargo & Luciano ou Leonardo cantarem, mas minha mãe fala que eles não vão cantar, por causa da palavra “diabo”.

9. O Homem se Julgou Deus eu fiz em homenagem ao Popeye, primeiro personagem tatuado e cosmopolita que eu conheci na minha vida. E ele era vegetariano e defendia a Olívia do estuprador do Brutus. Fala também de gente grande com mentalidade de criança mimada e lambona.

10. Não é Nosso esse “tar” de Halloween. Essa música surgiu na minha mente da mesma forma que um raio é atraído por um pára-raio, causando um clarão onde pude ver o que cantava. É um modão de viola que fará linha de frente na Parada do Saci, que – espero eu – comece a acontecer no dia 31 de outubro, em resposta à Zombie Walk, que rola no Anhagabaú, importada “dos Estates”.

11. Queimando o seu Escritório eu fiz em homenagem à energia desprendida no iluminar da Lua e como essas partículas se transformam em combustível pras formas invertebradas de vida e os ursos polares.

12. Revolução Constitucional é mais ou menos um resumo da saga do progressismo imbecil do gênero humano ocidental, que está muito equivocado nesse caminho que seguiu. [Veja aqui o artista tocando a música em gravação da equipe Doravante].

13. E aí tem uma música que eu fiz em homenagem ao guitarrista do Led Zeppelin, o Jimmy Page. Você vê que tem muitas homenagens nesse disco, né? (risos)

PS.: A entrevista que deu base a este artigo foi feita pela nossa querida Isabela Georgetti.

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