Patricia Gouvea

Patricia Gouvêa: Imagens Posteriores

Viagem, tempo, memória e saudade

Eu comecei a refletir sobre essa diferença entre o turista e o viajante, que tem tudo a ver com a forma como a pessoa se relaciona com o tempo. Porque o turista não tem tempo para o acaso e o que ele vai trazer… e o viajante vai justamente em busca disso, em busca da experiência.”

Quando, em 1999, a fotógrafa Patricia Gouvêa começou as pesquisas para o seu trabalho Imagens Posteriores, ainda não imaginava que este seria o primeiro* de uma série de trabalhos seus sobre a temática do tempo. E tampouco que ele se estenderia daquele momento até os dias de hoje.

As imagens produzidas pela artista entre 2000 e 2010 compõem um conjunto de 70 fotografias, das quais 50 entraram para a seleção final do livro, lançado no final de 2012 no Rio de Janeiro.

Se a versão carioca do evento contou com uma exposição no Ateliê da Imagem (veja a exposição em 360º), em São Paulo o lançamento acontece hoje (27/02) e tem as presenças de Pio Figueiroa (Cia. de Foto) e Ronaldo Entler, para um bate-papo com a artista na Livraria da Vila (a partir das 19h30, na Alameda Lorena 1731).

Patricia Gouvea

Considerando-se o quanto, ainda hoje, é arraigada a ideia da fotografia como instante/passado, no início da pesquisa de Patricia (final da década de 90) o era ainda mais. Livrar a imagem desta espécie de “morte do tempo” (ou ao menos da morte do tempo como fluxo) foi um dos pontos de interesse mais caros à fotógrafa, que não via sentido em usar o fora de foco ou o “borrado” simplesmente como efeito. Ela pensava em um conceito e almejava ir fundo em testes que pudessem, através destes e de outros tantos elementos, resultar em imagens a serem experimentadas. As fotografias deixariam de pertencer, portanto, a um passado sólido e estagnado: teriam um tempo mais elástico.

Patricia Gouvea

Eu moro embaixo do Pão de Açúcar e comecei a pensar na maneira como as pessoas experimentam a paisagem. Na verdade, muitos lugares que têm um potencial sensorial enorme acabam virando invólucros, nomes; caso do Pão de Açúcar, da Chapada dos Veadeiros, dos Lençóis Maranhenses… que são invólucros turísticos. (…) Este não é um livro sobre lugares; ele é um livro sobre experiências, sobre trajetórias, sobre sensorialidade, sobre o acaso. O que é a natureza, a paisagem… porque, na verdade, poucas são as pessoas que tem a experiência da natureza. O que a gente conhece é a paisagem – e a paisagem já é uma natureza culturalizada”.

Viajando pelo Brasil e pela América do Sul, de carro, ônibus e barco, a fotógrafa não foi unicamente atrás de pontos emblemáticos para capturar a experiência sensorial de uma viagem. Em alguns casos, ressalta, isso aconteceu, mas a intenção era sempre eliminar quaisquer vestígios que tornassem os lugares reconhecíveis. Hoje ela constata, satisfeita, que a resposta das pessoas (espectadores) é, de fato, às sensações trazidas pelas imagens – e não uma preocupação com entender a qual lugar físico cada foto pertence.

Patricia conta que a maior parte das reações que presenciou e escutou em relação à obra tem a ver com relatos de estado de espírito – de uma “sensação de vento” ao extremo de uma sensação de morte (como na plácida imagem abaixo, feita, de fato, em um momento em que a artista sentiu que iria morrer, atravessando uma tempestade forte em alto mar).

Patricia Gouvea

A fotógrafa se interessa pela vulnerabilidade a que nos expomos no inédito e do imprevisível de um caminho, por situações-limite e também por certos “tempos mortos” da produtividade, ou seja, em como se aproveitam e vivenciam as pausas, as horas de lazer, as horas de não-trabalho (ver também Exercícios de Arte Lúdica).

Se permitir sentir também tem a ver com parar essa coisa incessante do nosso tempo cronológico, que é um tempo newtoniano – e que serviu muito bem à Revolução Industrial – contar as horas, minutos e segundos para remunerar as pessoas, mas que não necessariamente é o tempo do nosso corpo, do nosso espírito.”

Não por coincidência, a maior parte de seus trabalhos floresce, justamente, nessas saídas do cotidiano, numa mistura de etnografia com arte (ler o ótimo texto do jornalista André Viana, que está no livro Imagens Posteriores e conta um pouco de uma viagem feita por eles – André e Patricia – e outros amigos à Bolívia). “Eu até preferi não colocar nenhum texto teórico no livro, porque eu já escrevi muito sobre essa série na minha dissertação, muitas pessoas já escreveram. Então, resolvi fazer um livro no qual a leitura não fosse encaminhada para algum lugar. O texto [do André Viana] pode até ser lido sem as imagens.”

Patricia Gouvea

Os slides que chegavam das viagens passavam semanas na mesa de luz, com a artista debruçada sobre eles, olhando. O processo lento, diz Patrícia, é uma característica sua. Ao longo destes treze anos produzindo e analisando as imagens, muita coisa que não fazia sentido passou a fazer – e a integrar o livro, por exemplo – ou o contrário: tornou-se excessiva ou desnecessária e saiu na edição**.

A história não é, ainda, o tempo; nem o é, tampouco, a evolução. Ambos são consequências. O tempo é um estado: a chama em que vive a salamandra da alma humana. (…) Em certo sentido, o passado é muito mais real, ou, de qualquer forma, mais estável, mais resistente que o presente, o qual desliza e se vai como areia entre os dedos, adquirindo peso material somente através da recordação.” __ Tarkovski

Patricia Gouvea

imagem cedida pela artista

Questionada sobre quando o projeto Imagens Posteriores chegara ao fim, Patrícia riu. E confessou que, após quase uma década produzindo as imagens e mais cinco anos em busca de patrocínio, imaginava o encerramento com o lançamento do livro. A partir de sugestão dada pelo jornalista e curador Marco Antonio Teobaldo, porém, ela acabou levando as imagens do livro para a cidade, realizando intervenções urbanas em pontos do Rio de Janeiro que “estão passando por modificações nesta nova fase da cidade” (como a entrada da Favela da Maré, Santo Cristo e Praça da Bandeira). Essa iniciativa gerou uma nova produção, uma extensão do trabalho: o registro das fotografias nas ruas (e a interação da cidade com elas) e um vídeo com a mesma abordagem. “Essas imagens são como fendas na paisagem”.

A recepção a este desmembramento do projeto foi tão boa (na internet e no contato direto nas ruas, quando a fotógrafa e a equipe colavam os “lambe-lambe” nos muros) que acabou indo também para Fortaleza (segunda cidade onde a obra foi apresentada, em lançamento coletivo de livros). Com a novidade, Patricia segue sem saber quando encerra o ciclo Imagens Posteriores. Mas está feliz que o projeto tenha saído do âmbito da galeria e do livro, muitas vezes restritos a poucos, para um acesso mais amplo das pessoas.

Patricia Gouvea

O lançamento:
__ HOJE, 27/02, quarta-feira, a partir das 18h30, na Livraria da Vila (Alameda Lorena, 1731)
Debate com Patricia Gouvêa e Pio Figueiroa (mediação de Ronaldo Entler) às 19h30

Conheça também:
__ Banco de Tempo. Projeto [em andamento] desenvolvido em parceria com Isabel Löfgren, no Jardim do Museu da República. “A gente materializa o tempo na figura do banco e discute a maneira como as pessoas do jardim usam o seu tempo”.

Patricia Gouvea

Patricia Gouvea

* O trabalho Da Saudade, da artista, teve início anterior ao Imagens Posteriores. Muito motivado por sua história pessoal e pela temática da saudade, o projeto consistia em uma aproximação documental de Patricia da colônia portuguesa no Rio de Janeiro. No entanto, como a artista acabou “abandonando” temporariamente este projeto (ao sentir que ele necessitava de um vídeo para estar completo), Imagens acaba sendo o que ela considera o primeiro trabalho no qual conseguiu materializar a hipótese da experiência da duração (Berkson) e a investigar o tempo.

** Vale nota o fato de que este acervo todo quase foi perdido, com os slides infectados por fungos – e os CDs que continham os scans, corrompidos. O material foi cuidado por Sérgio Burgi, do Instituto Moreira Salles, e re-escaneado e tratado por César Barreto. “E aí as cores do trabalho vieram como realmente eu nunca tinha conseguido chegar”.

Compartilhe: