Retrato em Cores de Pedro Gutierres

Retrato em Cores de Pedro Gutierres

pedro gutierres

O espaço de trabalho de Pedro Gutierres tem tudo impresso nas paredes, como se elas absorvessem mais do que tintas: também o humor, a ordem ou falta dela, um modo de trabalho. O ateliê fala muito sobre este jovem artista gaúcho que tem obras no acervo do Museu de Arte Contemporânea do RS de um lado, um álbum de música prestes a ser lançado do outro – e ainda tatua sobre a pele seus desenhos. Atividades múltiplas que o impedem de assumir um ofício definitivo.

pedro gutierres por carine wallauer

Gutierres já fez autorretratos utilizando objetos encontrados no próprio ateliê: pintava por cima de guitarras ou espelhos e assim desfazia a função original do que, conscientemente ou não, também falava sobre quem Pedro era. Fragmentos de história pessoal que serviam de suporte às suas desenhuras, nome dado às intervenções feitas de desenho e camadas de tinta.

Agora o movimento é contrário, para separar os objetos que explicam de qual matéria Pedro Gutierres é composto. Flagrantes de seu ateliê que expõem um artista capaz de se comunicar pelas cores, em um resultado talvez mais suave do que alguém tão apegado ao preto e branco possa imaginar.

pedro gutierres por carine wallauer

// Construções de Madeira

Meu pai construiu todo este ateliê, desde a mesa ao teto. Foi com ele que fiz uma guitarra em casa ano passado, de uma madeira simples, praticamente um compensado. Meu pai é uma inspiração porque desenha muito bem, toca e faz marcenaria – além de seu trabalho “oficial”, no restaurante do qual é proprietário. A música e os objetos que criamos juntos nos unem, embora sejam momentos cada vez mais raros.”

// Trabalhos Antigos Encostados na Parede

Em 2010 fiz minha primeira exposição fora do Brasil, em Hamburgo, na Alemanha (depois de verem um desenho meu na Zupi, revista de ilustração). Já tinha um trabalho consolidado e uma linha visual de desenho, apesar de não conseguir viver disso. Foi o momento em que saí da agência de publicidade onde trabalhava como designer. Depois de montar a mostra e vender meus trabalhos entendi que poderia ter uma vida diferente da que eu tinha. Alguns trabalhos dessa época estão aqui.

pedro gutierres por carine wallauer

// Guitarras

Sou viciado em guitarras. A primeira com que toquei peguei de um amigo. Comecei a tocá-la aos 12 anos, mas só há pouco tempo liguei e pedi o instrumento – que para ele era lixo – para guardar no meu ateliê. A melhor guitarra que eu tinha em casa vendi para pagar o disco que será lançado em maio (Lua de Tambor, da banda Rocartê, da qual é integrante). Não dou muita atenção para as marcas, acabo tocando os instrumentos que me agradam – e isso vai muito além das questões técnicas.

// Máquina de Tatuar

Sempre gostei de tatuagens e tenho muitas desde muito novo. Comprei uma máquina há dois anos e então tatuei minha perna. Fiz tatuagens em outras pessoas e só parei quando fomos morar na praia para gravar o disco. (Pedro e os outros integrantes da Rocartê passaram 3 meses isolados em Nova Tramandaí, no litoral gaúcho, onde montaram um estúdio)

Eu tatuo meus desenhos, mas sou muito autocrítico e ver meu desenho na pele às vezes me deixa em dúvida sobre o que faço.”

pedro gutierres por carine wallauer para doravante

// Bagunça pelo Ateliê

O ateliê antigamente era uma garagem, e logo no primeiro semestre da faculdade de design pedi para me instalar aqui. Precisava de espaço e meu pai me ajudou a montar, mas sem muito planejamento – aconteceu sem querer. Às vezes não me sinto bem com a bagunça, porque minha mesa fica tapada de coisas, o sofá nunca está disponível. (Bagunça serve de paralelo para a forma como Pedro trabalha)

O caos gera novidades e faz com que eu não me repita. O ruim é trabalhar mais do que alguém que tenha um processo definido. As fórmulas facilitam, enquanto eu preciso ficar fazendo, fazendo e fazendo até que algo aconteça. 90% das coisas que surgem são ruins, mas tem aquela pequena porcentagem que funciona e gera trabalhos novos – e é assim com o desenho e a música.”

// Roupa de Trabalho

Apesar de meu ateliê ficar dentro de casa eu sempre me arrumo para trabalhar – mesmo que seja uma camisa qualquer, calça jeans e tênis. Jamais passo o dia de pijama. Demorei a perceber que ficava menos disponível para o trabalho se não me preparasse para isso, mas foi um aprendizado importante para organizar meu dia.”

Pedro Gutierres

Conheça mais do trabalho do artista aqui.

Texto e entrevista por Raquel Chamis | Fotografias por Carine Wallauer

pedro gutierres por carine wallauer para doravante

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