Um Desenho por Teus Sonhos: as trocas poéticas de Raquel Alberti

Um Desenho por Teus Sonhos: as trocas poéticas de Raquel Alberti

Quero morar numa cidade onde se sonha com chuva. Num mundo onde chover é a maior felicidade. E onde todos chovemos. [Mia Couto]

Mia Couto deve ter sofrido de sonhos por toda a vida, como se percebe no trecho acima, parte de Antes de nascer o mundo. O livro do escritor moçambicano, casualmente relido antes da entrevista com a artista plástica Raquel Alberti, acomodou-se bem para abrir uma conversa sobre desejos – que, como chuva, caem com força sempre que um novo ano está prestes a nascer. O projeto Desejo/Desenho: trocas poéticas é muito mais do que um trabalho de arte que virou dissertação de mestrado. Com delicadeza, fala sobre a mudança de ano, as esperanças renovadas e o imaginário de felicidade que ronda todos nós.

A ideia era simples: converter pedidos de Natal em imagens. A proposta foi lançada nas redes sociais e, para a surpresa de Raquel, choveram respostas. Depois de catalogar os pedidos, a artista descobriu que não queria ficar presa a soluções prontas (apesar de muitas pessoas terem feito descrições minuciosas do que queriam ganhar). “Um amigo, por exemplo, disse que queria férias. Relatou o destino planejado em tantos detalhes que parecia que ele havia comprado aquele desejo em uma agência de viagens. Aos poucos, percebi que na realidade falava sobre deixar a própria rotina rumo a um lugar idealizado.” Ela explica que o desejo por algo subjetivo está sempre misturado às imagens a que estamos habituados a recorrer. Para relaxar, praia deserta com coqueiros. Para romance, Paris. Para casamento, vestido branco e bolo de noiva.

Querer o mesmo que as outras pessoas tranquiliza. Quando todos querem as mesmas coisas, há uma sensação de compartilhar o sonho, de fazer parte de algo maior”.

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Para desvendar os pedidos alheios, Raquel Alberti embarcou em uma viagem pessoal rumo a cada desejo. Virou uma colecionadora. E descobriu que apesar de tão propício ao sonho, o fim do ano é geralmente o momento em que nossas listas de metas são mais pragmáticas. Prova disso é que quando estabeleceram as prioridades para o futuro muitas das pessoas enviaram a Raquel desejos palpáveis: “A utopia tem muito de imaginação, do que parece ser impossível – apesar de aí também haver lugar para a vontade. Os pedidos que recebi eram em sua maioria bastante realizáveis”, diz ela, que complementa o raciocínio afirmando que a ideia do desejo é muito influenciada pela mídia e pelo consumo. Um bom exemplo foi o pedido por um “casamento lindo”, ao qual Raquel respondeu com figuras pouco óbvias.

Comecei a pesquisar fotos de cerimônias de príncipes e princesas. Mas quando coloquei essas imagens na parede para observá-las com algum distanciamento percebi que estavam sobre um sofá de dois lugares com almofadas simétricas. Foi assim que me dei conta de que um casamento nada mais é do que a união de dois elementos diferentes: é um lugar para dois.”

“Assim pensei em peças que se encaixam, ainda que pertencentes a objetos distintos: o botão de uma camisa que entra na casa de uma jaqueta, um zíper de casaco que se fecha com o zíper de um vestido.” O desenho fugia do imaginário tradicional – e, além disso, servia de questionamento às ideias que por alguma razão “compramos prontas”.

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O desenho é compreendido por Raquel Alberti como um desígnio. “O desejo é uma projeção a partir do qual se definem coisas, tem o sentido de antecipar um futuro. Desenho e desejo se encontram quando o traçado aponta caminhos”. Para quem do outro lado da tela do computador revelava seus pedidos, talvez houvesse a sensação de dar início à realização de algo: “Contar sobre as metas e planos de ano novo faz com que eles pareçam mais reais. Acho que falar sobre o próprio desejo é realizá-lo um pouco: imaginar é tomar as rédeas da própria vida.”

O resultado do trabalho teve três etapas: coleção de desejos, coleção de referências e coleção de desenhos. As obras finais têm impressão provenientes de cópias, concretizando a vontade de que houvesse um aspecto de lembrança. Ao final, o inventário de desejos de Raquel Alberti compila o imaginário do ano novo em uma cartela de nuances acinzentados: carrega uma textura de nuvem. Talvez as mesmas nuvens da cidade em que se sonha com chuva. Onde chover é a maior felicidade. E onde todos chovemos.

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