Juventude em Marcha: Vinicius Calderoni e seu segundo disco, Para Abrir os Paladares

Juventude em Marcha: Vinicius Calderoni e seu segundo disco, Para Abrir os Paladares

(…) Você vai chegando em lugares maiores, mas os parâmetros vão se deslocando na mesma proporção. É como se tudo fosse parte de uma mesma coisa: a relação entre a expectativa, o trabalho e o lugar onde se está funcionam como um círculo. À medida que ele vai girando, você vai conquistando coisas – mas a distância permanece igual. A expectativa e a exigência se deslocam proporcional e infinitamente. Ou seja, hoje em dia eu sou respeitado por pessoas que jamais sonhei, tenho um espaço meu e um com o 5 a Seco… mas, embora não possa reclamar da minha sorte e percurso, ainda estou longe de onde quero chegar”.

Não adianta tentar encaixar Vinicius Calderoni na gaveta dos músicos ou dos cineastas ou dos dramaturgos ou dos ‘pensadores da cultura’. Se já despontava claramente como um multi-artista quando lançou seu disco de estreia aos 21 anos (em 2006), hoje transita com fluência por todos esses Vinicius.

Vinicius em cena com Mayara Constantino, durante apresentação de Cambaio a Seco. Imagem: Paty Mara Penha.

Seis anos se passaram do lançamento de Tranchã pra cá. Esse intervalo permitiu uma ampla e cuidadosa divulgação do álbum primogênito – cheia de desmembramentos, como o engenhoso projeto Os 12 Clipes de Tranchã, de 2010 – e ainda deu espaço para que o artista circulasse por outras frentes de interesse. Assim, além de ter concebido e viabilizado o grupo 5 a Seco e dedicado um bom tempo à dramaturgia, Vinicius também compôs, junto ao sempre parceiro Tó Brandileone, uma série de trilhas sonoras para teatro (Cia Delas) e cinema (César!, dirigido por Suza). Inclusive, conta o artista, as pesquisas e experimentos feitos nestes trabalhos com Tó foram a origem estética de Para Abrir os Paladares, álbum que será lançado por Calderoni no dia 24 de março.

Em contraposição à forte influência da música brasileira nas faixas do primeiro disco, o material de agora brotou à luz de artistas como Camille, Oren Lavie, Hanne Hukkelberg e Brad Mehldau. “Não apenas pela experimentação em si, mas pelo acabamento e resultado a que eles chegaram”, explica.

Turista na cidade de nascença / cadência de quem não tem contratempo
vagando entre migalhas e partículas / feliz da vida, a vida em movimento”

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5 a seco, em fotografia de Braulio Araujo e Laura Del Rey

Boa parte das canções selecionadas para o disco já haviam sido compostas nos prolíficos anos que antecederam as gravações. Ainda assim, foram sete meses criando e elaborando detalhe por detalhe os arranjos do disco, que teve concepção geral de Vinicius e produção musical de Tó. Esses sete meses, no entanto, não foram consecutivos, e sim “quebrados” por outros projetos. “Fizemos o disco durante um mês em 2010, dois meses em 2011 e quatro meses em 2012 – o que, para um trabalho como o que nos propusemos, foi até pouco”. E Vinicius constata que as longas paradas, apesar de um pouco angustiantes, ajudaram muito a amadurecer os conceitos.

“Desde cedo, a gente teve a ideia de fazer um disco que fosse um caldeirão de surpresas, um caldeirão de sabores. Queríamos que a cada quatro compassos houvesse uma mudança brusca, drástica – e que isso abrisse uma sensação diferente. Na hora que veio o título do disco, Para Abrir os Paladares, essa intenção ficou ainda mais forte. Se os conceitos já eram bastante distintos de uma canção para outra, passamos então a fazer rupturas dentro de uma mesma faixa, criando universos e texturas completamente diferentes”.

A qualidade, a variedade e a quantidade de músicos envolvidos no disco já são indícios do tamanho da ambição: são cerca de trinta e cinco artistas, escolhidos pelo perfil e a forma como poderiam contribuir para essa sonoridade específica de cada música.

Sempre pensamos em formações muito contrastantes. Há uma faixa que começa com baixo, bateria e piano; chega na metade seguinte e entra um quarteto de cordas. Queríamos algo que não tivesse amarração com coisa nenhuma, rabo preso com nada: tivesse só uma responsabilidade de seguir o fluxo dramatúrgico proposto pelas letras e texturas.”

Esse cuidado e pesquisa fazem o processo soar um tanto desgastante – mas Vinicius garante o contrário. Em Tranchã, como tudo ainda era uma descoberta, cada etapa demandava muito. Aqui, já compreendido o processo de feitura de um disco, a angústia (outra sempre-companheira de Vinicius) esteve menos presente. O artista pôde participar mais ativamente da parte criativa e também coordenar em paralelo etapas como o projeto gráfico e as demandas de imprensa com as gravações em si. A sensação de “escalar uma montanha enorme” não foi embora, mas a experiência facilitou o caminho das pedras.

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Todo o processo é ao mesmo tempo angustiante e prazeroso. O que estou tentando alterar na minha vida, nos últimos tempos, é o coeficiente de angústia e prazer: quero aumentar o prazer e diminuir a angústia, e acho que estou sendo bem sucedido nisso”, diverte-se. “Mas como as demandas nunca acabam, às vezes preciso parar e curtir cada conquista.”

As treze faixas do disco serão lançadas em apresentação no Itaú Cultural. A roupagem das músicas virá exatamente como no CD. Um trabalho insano de sincronismo e meticulosidade que tem a direção musical de Zé Godoy (também no piano e teclados) e músicos de peso compondo o grupo: Conrado Goys (violão e guitarra), Danilo Penteado (baixo) e Pedro Ito (bateria). A direção geral ficou, claro, com o Vinicius, que conta com a co-direção do nosso colunista (e virtuose sem fim) Rafael Gomes.

Então / canto para quê? / grito contra quem? / vou atrás de quê?
Não são tão fundamentais / questões viscerais / essas e outras mais / se eu falo por mim
e te escuto bem”

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No repertório do show, músicas de composição própria – a única exceção é Chão de Estrelas, de Silvio Caldas e Orestes Barbosa. A preferência por cantar suas próprias letras é uma marca do disco e da nova etapa do trabalho do artista. “Ao mesmo tempo em que eu estou com o Dona Flor [projeto em parceria com Luiza Possi e Pedro Alterio, em que os músicos interpretam apenas canções de outros autores], não ando sentindo mais tanta vontade de cantar coisas externas. Sinto que eu tenho mais força e propriedade para defender as minhas ideias. Quando eu comecei a fazer shows, era recorrente os amigos comentarem: “puxa, quando você faz uma música do Chico, ela vem com muito mais certeza do que as suas próprias composições”. E acho que hoje, felizmente, essa lógica se inverteu. Eu até queria muito fazer uma regravação no disco [Um Copo Vazio, do Gil], mas acabamos não encontrando o caminho de colocá-la no conjunto – e não entrou”.

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Para ver e saber mais

_Hoje estreia o delicado projeto músico-visual Ao Vivo no Casarão, dos amigos Cristina Müller (Varanda Filmes), Yuri Pires Tavares e Giuliano Rossi (Toca dos Filmes). Para o lançamento, os cineastas escolheram Vinicius Calderoni – e fizeram, portanto, os primeiros registros em vídeo das canções de Para Abrir os Paladares. As imagens captadas no Casarão de Belvedere trazem Vinicius em voz e violão e também em entrevista. [A partir de hoje, em todas as quintas-feiras o Casarão apresentará vídeos semanais unindo música e cinema. Cada artista escolhido terá seu retrato feito em três blocos, divulgados ao longo de três semanas. A escolha dos artistas não segue um estilo pré-determinado e sim uma curadoria livre e permeada pelo consenso entre os diretores.]. Nas palavras de Giuliano, “temos vontade de conhecer artistas novos e ajudar a divulgar quem a gente considera bom e ainda não tem tanto espaço na mídia convencional”. [ site e FB do Casarão ]

_ O lançamento do disco, em São Paulo, acontece domingo (24 de março) a partir das 19h no Itaú Cultural (Av. Paulista nº149). Com entrada franca, é necessário retirar os ingressos com 1h de antecedência na bilheteria do local. Os figurinos e objetos de cena foram criados por Anna Turra (também designer do site novo do artista, no ar desde a semana passada) e Valentina Soares. O desenho de luz é de Wagner Antônio e o áudio fica por conta de Adonias Souza Jr (Estúdio Arsis).

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Vinicius, Luiza Possi e Pedro Alterio, em Dona Flor. Imagem: Naira Messa.

_ E doravante, além da divulgação do disco, a princípio planejada para São Paulo (capital e interior) e Rio de Janeiro, Vinicius já articula a realização de dois videoclipes: Mesmo Quando a Boca Cala (direção de Suza e Arthur Warren) e Aguarde Sua Vez (direção de Marco Lafer e Gustavo Moraes, os mesmos diretores do incrível clipe d’ O Terno). Seguem em curso os projetos 5 a Seco e Dona Flor e vêm por aí duas estreias teatrais: Um Útero é do tamanho de um punho (em processo de ensaio e com direção de Vinicius, adaptado do livro de Angélica Freitas) e Não nem nada (com previsão de estreia no segundo semestre e com direção e dramaturgia do artista).

Para finalizar (embora não dê vontade), Lenine com os meninos do 5 a Seco apresentando Ou não – composição de Vinicius e faixa 6 do disco novo – no Auditório do Ibirapuera:

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