Sobre a arte de ser Wagner Moura

Sobre a arte de ser Wagner Moura

penelope-cruzO Internet Movie Database (IMDb, para os íntimos) lista como a estreia de Wagner Moura no cinema o filme Sabor da Paixão (2000). Aquele em que Penelope Cruz vem pro Brasil, cozinha, conquista Murilo Benício, pinta e borda.

Você lembra de Wagner Moura em Sabor da Paixão? Nem a gente.

Em seguida, sempre segundo o IMDb, o ator fez Abril Despedaçado (2001). De novo, nem a gente. E, em seguida, As Três Marias (2002), antes de protagonizar, ombro a ombro com Antonio Fagundes, Deus É Brasileiro (2003).

Aí sim.

http://youtu.be/CfUbugZXbXU

Desde então, Wagner protagonizou 11 longas-metragens, em dez anos – se considerarmos que ele é um dos protagonistas de Ó, Paí, Ó. E por ser um ator tão prolífico num meio de expressão que, nacionalmente falando, não é tão prolífico, ele foi se tornando um desses atores que impõe aos filmes sua própria autoralidade.

Mesmo tendo trabalhado em filmes de diretores como Cacá Diegues, Jorge Furtado, Guel Arraes e José Padilha (que, vale dizer, só veio a ser José Padilha depois de Tropa de Elite), a presença de Wagner Moura na tela é sempre tão dominante que faz com que os filmes se tornem, de alguma forma, filmes “de Wagner Moura”.

Não que o possível estilo dos diretores – e/ou do próprio filme – sejam engolidos ou subjugados pela presença do ator. Mas a forma como ele preenche os personagens, potencializando o que é bom ou melhorando o que é menos que excelente, são em si um estilo. Ao mesmo tempo que Wagner é um desses atores camaleônicos, ele é também um de nossos atores com assinatura mais clara.

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“Alô? Capitão Nascimento?”

Sua submersão por trás dos personagens é simultaneamente total e incompleta. Não há o menor resquício de Capitão Nascimento no Marcelo de VIPs. Mas ambos são indefectivelmente Wagner Moura.

Meryl Streep, por exemplo, é uma atriz que simplesmente desaparece, como persona, a serviço de seja lá qual personagem – para citar o caso mais paradigmático. Marlon Brando, por exemplo, é um ator que não – para citar outro caso paradigmático.

E isso significa que estamos comparando Wagner Moura a Marlon Brando? –  gritarão os furiosos. Não. E sim.

Ao que se alude, aqui, é esse personalismo da máscara. Esse ponto no qual ambos, de suas maneiras, em seus contextos e devidas proporções, criam personagens absolutamente memoráveis e definitivos, mantendo essa espécie de rubrica artística que nos permite dizer “um filme de Wagner Moura”, mesmo quando esse filme tem um diretor conhecido e forte assinando-o.

wagner-moura-3Pois então vejamos. Depois de Deus É Brasileiro, Wagner participou de Carandiru, de Hector Babenco, de O Homem do Ano, de José Henrique Fonseca (alguém aí conseguindo localizá-lo nesses filmes?) e protagonizou O Caminho das Nuvens, de Vicente Amorim. Tudo no mesmo ano de 2003.

Após uma breve temporada na televisão, ele apareceu em um pequeno e definitivo papel em Nina (2004), de Heitor Dhalia, e em seguida no explosivo Cidade Baixa, de Sérgio Machado, um filme iminentemente “de atores”.

Cidade Baixa é a estreia de Machado na direção de longas-metragens, assim como Nina é a de Dalia e Caminhos das Nuvens a de Amorim. Apostar em filmes de diretores estreantes, portanto, é uma outra característica destacável no caminho que Wagner Moura tem traçado no cinema. Teria isso alguma coisa a ver com essa capacidade de, sem sair do estilo a que os filmes aspiram, imprimir seu próprio estilo aos filmes?

Em seguida, fez uma participação em A Máquina (2005), de João Falcão. “A Máquina”, uma espécie de ‘novela poética’ de Adriana Falcão, já dera origem a uma peça teatral, dirigida também por João Falcão, que, pode-se dizer, foi o que revelou Wagner para a fama (não só ele como também Lázaro Ramos e Vladimir Brichta).

Após outra temporada na TV, o ano de 2007 selou-o definitivamente no imaginário do público brasileiro (de todas as mídias). Sucederam-se Ó, Paí, Ó, de Monique Gardenberg, o hilário Saneamento Básico – o Filme, de Jorge Furtado e, enfim, Tropa de Elite, de José Padilha.

Ali, Wagner Moura estava para sempre eternizado. Fosse um ator menor, poderia nunca se livrar da sombra de Capitão Nascimento. Mas não só reprisou  e ampliou o papel, três anos depois, como protagonizou filmes, por assim dizer, mais ‘leves’, para arejar a implacabilidade de seu personagem mais famoso.

Romance (2008), de Guel Arraes, e O Homem do Futuro (2011),  de Cláudio Torres, são exemplos perfeitos do quanto ele pode ser decisivo na árdua tarefa de impor honestidade e verossimilhança a papéis aparentemente corriqueiros.

Entre esses dois filmes, ainda houve VIPs, de Toniko Melo (mais um diretor estreante em longas metragens), no qual Wagner demonstra que, bem, não se é Wagner Moura por acaso.

Tudo isso, enfim, para dizer que Wagner Moura está atualmente em cartaz com A Busca, de Luciano Moura (adivinhou: um diretor estreante!). Filme que existe por causa dele.

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Também estão em A Busca os atores Mariana Lima, Brás Antunes e Lima Duarte. O filme, que teve estreia dia 15/março, conta a saga do médico Theo (Wagner) e sua esposa (Mariana) atrás do filho desaparecido. 

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