Camadas de William Kentridge para um Mundo Menos Raso

Camadas de William Kentridge para um Mundo Menos Raso

Há alguns dias visitei a exposição Fortuna, de William Kentridge, artista sul-africano que trabalha filmes compostos por séries de desenhos de carvão. A feitura de suas obras é minuciosa e poética, apoiada sobre as questões do regime do apartheid – o que por si já serviria de motivo para escrever sobre ele. O que me chamou a atenção, porém, foi a forma como os filmes, geralmente criados sem um roteiro linear, mostram processos: a imagem vai se transformando aos olhos do espectador, de forma que os desenhos antigos não são apagados, mas sim sobrepostos. Kentridge se expressa pelo acúmulo.

Raquel Chamis: William Kentridge

Levei para casa o catálogo, que continha entre outros trechos uma explicação da curadora da mostra, Lilian Tone, sobre o trabalho do artista: “(…) a obra de Kentridge também testemunha sua própria história de fazer, desfazer e refazer. Como se Kentridge procurasse iluminar seu trabalho interior com a própria memória, em que traços fugidios do lembrar, do esquecer e do reconstruir se emaranham.” O acúmulo, ficou claro, não era somente de material de riscar e pintar papel – vai além disso. Sobre os desenhos, o artista deposita também suas vivências e prova que ainda que quisesse jamais poderia se livrar delas.

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Só quando estou fisicamente engajado num desenho é que as ideias começam a emergir. Existe uma combinação entre desenhar e ver, entre fazer e avaliar, que estimula uma parte da minha mente que, não fosse isso, ficaria fechada” __  W. K.

As camadas de grafite feitas por Kentridge levam a pensar sobre a espessura como um indicativo de significados. Independente da área em que se trabalha, todas as atividades podem ser impregnadas de conexões e de referências que dão volume. O grafite é metáfora para densidade, no melhor sentido da expressão. Um bom exemplo de como se pode acrescentar camadas é a moda, considerada por muitos uma área superficial: há quem faça roupas apenas para lançá-las às araras, e há Ronaldo Fraga, estilista mineiro que cria peças de vestir impregnadas de literatura, poema ou canção. A lógica se aplica a tudo, pois não há algo que seja simplista por si só. Tudo depende do empenho em procurar conexões e acrescentar importância ao que se faz.

Em tempos de tanto se falar sobre informação rasa e grande apenas na quantidade, às vezes os benefícios de dar mais tempo a uma tarefa ou de cavocar mais fundo um determinado assunto ficam esquecidos. Mas quando isso acontece, ganha-se em reflexão: sentidos, leituras e pensamentos formam um acúmulo que, assim como o dos filmes de Kentridge, é fruto de uma busca obsessiva de adicionar o que é relevante e subtrair aquilo que não interessa. Tudo que fazemos (não importa se um texto, um desenho, uma fotografia) quando é leve demais tem o risco de ser efêmero. Falta o oposto: dar ao que fazemos mais tempo e não ter medo do peso.

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A mostra Fortuna, de William Kentridge, esteve no Instituto Moreira Salles, no Rio, está na Fundação Iberê Camargo em Porto Alegre e de lá segue para a Pinacoteca em São Paulo.

Raquel Chamis: William Kentridge

William Kentridge, desenhista, filmmaker e escultor

Para saber mais

__ release da exposição na Fundação Iberê Camargo > download
__ vídeo Pain and Sympathy + entrevista com William Kentridge > assista aqui
__ o artista falando de seu processo de trabalho para o SFMOMA > assista aqui
__ um monte de infos/obras bacanas de Kentridge no site da TATE > veja aqui

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