É Preciso Arrumar a Casa

É Preciso Arrumar a Casa

Claro, a vida é suja, a vida é dura, disse um poeta enquanto jurava de pés juntos que seu poema estava protegido dos amores e das memórias e das tristezas. O próprio poema, porém, ria no cantinho às gargalhadas: quanta ingenuidade acreditar que a arte pode andar assim tão silenciosa e limpa como a bruma. A historieta se passa em A Poesia, de Ferreira Gullar, em cujas linhas apareceu o nome de um projeto fotográfico que não quis descolar o que se vive atrás das lentes do que vai para o papel.

Antes, É Preciso Arrumar a Casa era apenas um agrupamento de palavras em meio a este poema de Gullar. Agora virou telhado para seis fotógrafos que falam de si no coletivo: Carine Wallauer, Leonardo Remor, Marco A. F., Roberta Sant’Anna, Serena Salvadori e Tiago Coelho. Juntos e sujos de vida, eles fizeram das próprias imagens um recurso de autobiografia e criaram uma série de fotolivros independentes subsidiados por financiamento coletivo.

carine wallauer é preciso arrumar a casa

// Entrevista com Roberta Sant`Anna [autora de Mix Tape

__ o trabalho coletivo ajudou a olhar para dentro dos processos individuais?

Com certeza. Trabalhar em grupo, principalmente quando grande assim, exige bastante organização, bom senso e controle de temperamento. Cada um tem seus tempos próprios e personalidades distintas. Não é fácil orquestrar todas. Tenho a impressão de que aprendi a ser mais política e mentalizar mais como grupo do que como indivíduo. De uma maneira meio paradoxal, fazer e ver acontecer a questão coletiva fez eu entender e desenvolver o meu fazer individual.

__ o tom autobiográfico facilita o trabalho? ou é um caminho difícil? 

Acho que não dá colocar entre fácil e difícil. É muito complexo por um lado e muito simples por outro. Quando percebi, estava abrindo minha intimidade e vendo as pessoas levarem ela embora embaixo do braço, na forma de um livro. Isso me assustou um pouco! Mas ao mesmo tempo é muito interessante, pois a partir dali as pessoas estão livres para criarem suas próprias histórias dentro da minha. Quanto ao fazer, é muito difícil editar um trabalho extremamente pessoal e nisso o grupo foi fundamental. Acho que transformar ele em algo que comunique também não é fácil, quando dentro da gente tudo é muito abstrato. A parte simples fica por conta do entendimento, profundidade e familiaridade que temos acerca do que é nosso como memória, sentimento e emoção. O tom autobiográfico, pra mim, funcionou como uma auto terapia.

__ qual tua fotografia preferida do fotolivro? ou alguma que represente este trabalho com mais força.

Gosto muito da foto em que se vê metade de um corpo masculino acocado em cima de uma pedra e um longo braço se projetando em direção a água. Gosto da sensação que ela me passa em harmonia com a memória do momento.

roberta sant'anna

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é preciso arrumar a casa

// Saiba mais

_ visitando o site do projeto
_ conhecendo a bem sucedida campanha no Catarse

* artigo/entrevista por Raquel Chamis | vídeo por Laura Del Rey

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