Frances Ha, a primeira bailarina das quase-bailarinas

Frances Ha, a primeira bailarina das quase-bailarinas

fracesha_foto01Dizem que uma memória, para ser duradoura, deve ser visual*.

Talvez seja por isso que entre todas as minhas lembranças há uma que ficou mais forte: a cena foi, mais do que visível, dançada. Aos três anos e meio, minha mãe me levou vestida de rosa à primeira aula de balé clássico. Queria apenas que a criança meio manhosa que fui integrasse algum tipo de atividade social. ~Quer olhar um pouco ou entrar na roda?~, disse a professora de coque alto. Com uma dose de coragem infantil eu entrei. Quando vi, tinha aprendido a saltar em skip**, um dos passos para uma vida coreografada pelo balé daquelas que jamais serão primeiras bailarinas. E que fazem disso uma forma de seguir adiante.

doravante_francesha_2Existe um imenso corpo de baile formado por garotas que em algum momento (ou vários) se imaginaram solando no Ballet Bolshoi – até que, ops: confundiram esquerda com direita ou não tinham equilíbrio suficiente para tanta pirueta. Este grupo que troca a barra da sala de aula pelo sofá de casa e se chateia quando apenas longe dos olhos dos outros tudo sai impecável ganhou do cinema uma personagem-símbolo: Frances Ha. A protagonista do filme, interpretada por Greta Gerwig e dirigida por Noah Baumbach, é uma apaixonada por dança que chega ao posto máximo de… assistente da companhia. O que seria motivo de desgraça para as mais perfeccionistas é o grande charme dessa figura que saltita aos rodopios pelas ruas de Nova York. Ao som de Modern Love, de David Bowie, hipnotiza todas aquelas que já se perguntaram se tinham pé de palhaço ou pé de bailarina.

~But I`m standing in the wind / I never wave bye-bye / But I tried~

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Afora os méritos cinematográficos do roteiro que ganhou vida em preto e branco para ficar ainda mais vibrante, Frances Ha lembra um dos grandes aprendizados de quem dança independentemente do nível de profissionalismo. Encarar sequências de primeira, segunda, terceira (e por aí vai) posição dos pés apenas para, um belo dia, fazer o grand-jeté dos sonhos no meio da aula, é um verdadeiro exercício de humildade. Quando não se é a primeira bailarina do grupo, fica mais fácil aceitar que os erros existem, que as colegas têm muito a ensinar, que cada uma tem suas qualidades. Balé, afinal, pode deixar de ser busca obsessiva por perfeição para se tornar um jeito bem suave de viver. Porque mesmo quando tudo dá errado uma bailarina de espírito refaz o coque, arruma as polainas e respira fundo, o mais fundo que consegue. E segue adiante.

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O filme produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira explora um sentimento de aceitação dos próprios limites e, acima de tudo, dos novos rumos que daí vêm. Algo bem próximo do que ouvi de uma amiga*** há poucos dias: nos ares de hoje, há um desejo de enfrentar o apego à vida perfeita. Saem os murais com inspiração inatingível do Pinterest, entram as graças que só existem quando impregnadas de humor e vida real. O que, em uma explicação vinda das telas, significa ser menos Nina (a inesquecível bailarina interpretada por Natalie Portman no filme Cisne Negro) para, enfim, rir dos próprios tropeços como uma destrambelhada Frances Ha. Exatamente o que se sente ao longo de uma boa aula de balé: se os pés insistem em ficar afastados na quinta posição, tudo bem. Há sorriso quando os olhos fecham para alongar o corpo na última música, há sempre outro dia para furar a meia-calça ou vestir um collant colorido.

E girar. E girar.

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* Quem duvidar, que recorra a um dos livros que vi e não li, Moonwalking with Einstein, de Joshua Foer.

** Para saber o que é um skip (ou uma tentativa dele), veja este vídeo-fofura

*** A amiga em questão é a Carol Althaller, que entre outras milhões de coisas escreve para a Vista.

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