Olhos gigantes: a São Paulo que se reflete nos outros

Olhos gigantes: a São Paulo que se reflete nos outros

O menino me fitou como quem compartilha um constrangimento. Seu pai, em alguma dessas brutalidades que incomodam mesmo quando disfarçadas de pressa, trocava com ele uma série de palavras curtas. Segui para o fundo do ônibus e vi o garoto se fechar num suspiro enquanto a Avenida Paulista passava pela janela. Com este pequeno par de globos castanhos tive o primeiro contato de um dia entrecortado por pessoas e suas vistas: do Largo do Arouche ao Parque do Ibirapuera, começava um trajeto feito para observar São Paulo pelos olhos dos outros.

Antes de sair de casa lembrei do capítulo Família de Olhos, do livro Tudo que é sólido desmancha no ar. Nele, o americano Marshal Bermann analisa os tempos a partir de obras artísticas e políticas que vão do Fausto de Goethe ao Manifesto Comunista de Marx e Engels. E segue pelo que considera a aventura da modernidade até esbarrar na prosa poética de Baudelaire, este um adepto da flânerie: naquele séc. XIX, o andar em meio à cidade era para o escritor um ato político em que cada acontecimento gerava mudança interior. Este é o espírito de Spleen de Paris n. 26, que Bermann viu como um marco dessa nova relação das pessoas com as cidades – nas ruas caberiam então o encontro, a diferença, o susto. De volta à cena de Baudelaire: casal em bulevar recém-inaugurado da capital francesa fica frente a frente com três pessoas tão pobres quanto espantadas. Juntas, elas eram uma família de seis olhos incapazes de entender como uma mesa, na mesma cidade deles, era tão mais repleta de garrafas, taças e petiscos: pompas.

são paulo alziro barbosa

O que acontece quando alguém se depara com outras famílias de olhos que não a própria? Na cidade francesa que consolidou cenas de amores urbanos como um patrimônio, Baudelaire mostrou que o contato com olhares estranhos fazia cair o véu do rosto. No caso de seus personagens, porque marcava uma diferença: enquanto o homem do casal reagia com empatia àquela família, a mulher revirava-se em desgosto diante da pobreza. O pensamento dela, talvez outras vezes disfarçado por palavras, tornava-se evidente na íris alheia.

Eita, você passou do ponto, é? Espera aí dentro que em dois minutinhos partimos de volta e te dou uma carona até o Largo do Arouche. Você torce para o Internacional ou o Grêmio? Tá fácil achar trabalho em São Paulo? Você sente saudade de casa? Tá gostando daqui? _motorista do ônibus, fazendo de mim a entrevistada

gigantoTrazida de volta a São Paulo pela conversa com o motorista, pedi para descer no ponto em que começava o Projeto Giganto, instalado nos pilares do elevado Costa e Silva, o Minhocão. “Você viu que já picharam os rostos, né?”, disse o cobrador incomodado com o efeito de spray e tinta nas fotos. O que me fez pensar que o projeto atingia de fato todos que andavam por ali: pedestres, motoristas em carros fechados ou passageiros, todos se confrontavam com um tipo de retrato que vai na contramão da invisibilidade tão própria dos lugares povoados.

No trabalho da fotógrafa gaúcha Raquel Brust os personagens são pessoas comuns que viram gigantos a partir da hiperdimensão: fotografias pensadas para serem ativas, jamais estáticas. Os retratados (neste caso, moradores do entorno do viaduto ou pessoas que fazem dele uma casa) passaram por um processo que imagino ser mais íntimo do que público. Talvez ir para as ruas em tamanhos tão maiores do que os humanos requeira voltar-se para dentro: enxergar-se. Estabelecer algum grau de autoconfiança para ser percebido à distância.

Mal sabia o cobrador que me alertou das intervenções sobre as fotos que um desses rabiscos viria a confirmar a proposta do Giganto: “Você é lindo”, dizia em tamanho tímido a frase que cobria a imagem do homem jovem de poros fundos. Talvez em pele e cheiro ele passasse tão incólume quanto uma senhora maltrapilha que, entre os carros da Avenida Consolação e brados incompreensíveis, marchava, marchava. E que apesar do inusitado da cena era pouco vista por quem seguia o fluxo de costas para os gigantos. A fotografia amplia a existência para um tamanho de mais beleza. E alerta que com pessoas em tamanho real o contato visual é muitas vezes desviado: você é lindo?

Buenas!
_um skatista me soando sulista e familiar em plena Roosevelt

sao paulo doravante

Em domingos de ciclofaixas alaranjadas o espaço é bem mais vazio do que em qualquer outro dia. O que ajuda a dar uma volta no Largo do Arouche sem dificuldades: uma sequência de bares, a porta em tons de ouro da Academia Paulista de Letras, uma profusão de orquídeas à venda entre cactos e folhagens. Depois passo pela Praça da República, depois dela a Roosevelt e sua sequência de teatros com dizeres de todos os tempos. Sigo muitas quadras acima pela Augusta a 31 graus e paro à porta da chapelaria onde outro dia um senhor francês chamado Maurice se gabou de ter feito parte dos tempos áureos daquela rua: foram-se perdendo as lojas de tecido e confeitarias para os bares e puteiros, agora para a especulação imobiliária que se impõe sem a sutileza de uma boina costurada à mão.

Quando finalmente aplainei o passo na Avenida Paulista fui atrás de um homem cuja frase “gosta de poesia?” é ouvida por quem quer que passe pelo Parque Trianon – ele seria um bom contato visual e renderia alguma história sobre o que acontece quando se olha São Paulo de perto, bem perto. Não o vi com seus livros que falam de amor e sentei um pouco derrotada à espera de algum ônibus para encurtar o trajeto ao Ibirapuera. Mirando o MASP, porém, apareceu outro homem que, se não perguntava do meu gosto por poesia, era também alguém para ser visto. Parou ao meu lado e puxou assunto sobre literatura ou política. E ao sentir que o escutava desandou a falar da vida de escritor, de como havia sido censurado pelo conteúdo de seus livros (feitos em folha de ofício A4 colorida), dos crimes que havia presenciado e de um derradeiro e surpreendente envenenamento por sêmen que ele havia descoberto. Não sabia mais onde começava e terminava sua lucidez: Abraão Farias dos Santos. Deu-me a mão. E se resumiu na palavra autor. Por fim me vendeu livros cuja renda – fez questão de explicar – não passariam por editoras ou qualquer tipo de intermediário.

O cão de dois donos tem duas cabeças
Olhando para todos os lados
Pensa demais com medo da fome
Com medo sozinho se acaba
_Abraão, o autor

sao paulo doravanteEnfim à sombra do Ibirapuera ressoavam resquícios da orquestra que, no dia anterior, preenchera ouvidos com Bachianas. Todo trajeto fora pensado para que seu final fosse a apresentação da orquestra (e se eu tivesse lido a informação com mais atenção, não teria encontrado o palco vazio). De todo modo, o parque em meio à cidade é um abraço tão ensimesmado quanto um reencontro. Sem estímulos visuais em tons de avenida ou vivalmas que preenchem de pequenos e gigantos as calçadas, a grama fincada por árvores se fez um piscar de noite na claridade urbana. Descanso. Olhos: os meus se fecharam junto a um gole de água morna.

astericos

* imagens 1, 4 e 7: frames do curta O Cineasta, a Menina e o Homem-Sanduíche, dirigido por Daniella Saba e todo filmado no centro de São Paulo [imagens: Laura Del Rey e Mario Surcan]; fotos 2, 5 e 6 por Alziro Barbosa e foto 3: a instalação Giganto, em imagem do site oficial.

sao paulo daniella saba

Linha_750px_03

Compartilhe: