Olhar sobre o Outro: design expositivo com Bárbara Ferreira

Olhar sobre o Outro: design expositivo com Bárbara Ferreira

O termo glorificação do outro ficou anotado em meu caderno depois de assistir à entrevista-vídeo de Walter Firmo na mostra Um Olhar sobre Bispo do Rosário. Dita pelo fotógrafo, a expressão sintetizava a experiência que ele teve ao colocar o universo de Bispo em imagens – e ainda serviria bem para abrir este texto sobre quem transforma endereços culturais em cômodos para a arte. A designer de espaços expositivos do ambiente instalado na Caixa Cultural do RJ era Bárbara Ferreira, que lá falou sobre a própria atividade com o entusiasmo de quem desembrulha uma surpresa: ~Atuo gerando experiências de arte por meio do design~. Sem perceber que, enquanto trabalha, glorifica também o outro – os outros, a arte dos outros.

Bárbara Ferreira

A carioca integra a equipe do Barracão de Imagens e já montou, além da exposição de Walter Firmo, as mostras dos norte-americanos Steve Miller (Fashion Animals) e Peter diCampo (Life Without Lights) no Brasil. Ela tem uma função que vai muito além da mera estética: da montagem de uma exibição de arte depende em grande medida a leitura das obras. Bárbara conta que o design, nesses casos, equivale à diagramação de um grande livro com vida impressa. Apresentar as imagens, coordenar as visitas do público ou transmitir sensações pela cor das paredes – tudo faz parte de um mesmo processo.

Bárbara Ferreira

Organizar visualmente uma exposição é o que me satisfaz. Produzir algo bonito e informativo exige muita pesquisa e isso me encanta às vezes mais do que a própria arte.

– Bárbara Ferreira, designer.

Interferências visuais bem-vindas: arte para todos os públicos

Para dar forma à imaginação do curador, o design gera soluções para o espaço – que ganha roupa nova a cada mostra de arte. Uma mudança em relação a outros tempos, quando a museologia muito se apetecia de branco nas paredes para libertar o pensamento frente às obras: quanto menos interferência houvesse, melhor. Falta de comunicação que hoje, segundo Bárbara, nem sempre é desejada: ~Nunca se pode esquecer que muita gente não tem intimidade com a arte, e que dificultar a compreensão do conteúdo não ajuda em nada nessa aproximação. Pelo contrário, o espectador deve ser apresentado a uma história coesa e informativa~.

A designer ressalta que muitas exposições cujos conteúdos são relevantes e bem pesquisados perdem impacto pela falta de capricho nos acabamentos. Iluminação que incomoda, legendas desinteressantes, exposições abarrotadas que não preveem o descanso durante a visita e textos mal diagramados são alguns dos erros que devem ser evitados a todo custo. Na Caixa Cultural, Bárbara olha ao redor do que ajudou a criar e perde o pensamento por instantes. Assim mostra que quando o design vai além da antiga museologia de paredes brancas é que os espaços ganham peso: munidas de ferramentas de informação, as pessoas então fazem da arte vista e sentida aquilo que bem entendem. Como um Bispo do Rosário captado pelas lentes de Walter Firmo, dentro dos limites das paredes o visitante pode deixar a criatividade voar. É, afinal, um pouco dono do espaço onde mora a arte.

Expografia Walter Firmo: Bispo do Rosário

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Por trás das montagens: Bispo do Rosário

Um Olhar Sobre o Bispo do Rosário, de Walter Firmo

˜ A curadora Flávia Corpas e eu partimos da organização das imagens, inicialmente impressas em formato bem pequeno. É uma brincadeira de criança: testamos o que vai melhor ao lado de quê. Optamos por deixar as imagens do mesmo tamanho e apenas uma em destaque, em um lugar quente e aconchegante onde a iluminação não fosse muito dramática. Flávia queria algo lavado, com cores quentes, porque o tema da exposição já era tenso e o ambiente não poderia ficar sobrecarregado.

Por trás das montagens: Steve Miller

Fashion Animals, de Steve Miller

˜ Para a exposição de Steve Miller, criamos uma experiência cenográfica que valorizava as imagens de radiografia nas quais se baseia o trabalho do artista. Eram 18 obras que faziam uma relação entre a natureza e a sociedade de consumo. Neste caso, embora tenhamos chegado a um conceito bastante elaborado foi preciso simplificar o resultado: muitos materiais que queríamos não eram produzidos no Brasil.

Por trás das montagens: Life Without Lights

 Life Without Lights, de Peter diCampo

˜ O fotógrafo nos procurou na época da Rio +20 para a produção de prints e acabamos fazendo o projeto de ponta a ponta (produção, tipografia, design expositivo e montagem do espaço). As fotos retratavam comunidades que viviam em lugares sem energia elétrica, por isso decidimos que a experiência dos visitantes passaria por sentir essas mesmas condições. Usamos luminárias solares para que as pessoas andassem pela galeria no escuro.

bolinhas

Saiba mais!

seta No site do Barracão de Imagens
seta Tecnopop, uma das empresas de que a Bárbara mais gosta na área de design de espaços expositivos no Brasil
seta  Ensaio de Walter Firmo sobre Bispo do Rosário_ entrevista para O Globo
seta A exposição Um Olhar sobre Bispo do Rosário fica aberta a visitas até dia 10 de novembro no Arquivo da Caixa Cultural, no Rio de Janeiro. As fotos de Walter Firmo foram tiradas na antiga colônia Juliano Moreira, onde Bispo do Rosário viveu, e ainda não haviam sido objeto de uma exposição.

Bárbara Ferreira

* retratos de Bárbara por Laura Del Rey | demais imagens: acervo pessoal de Barbara Ferreira, excetuando-se Life Without Lights, de Peter diCampo

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