A semana: estranheza na Nova Zelândia, vitalidade na Europa, calafrios na Grécia e teatro em todo lugar

A semana: estranheza na Nova Zelândia, vitalidade na Europa, calafrios na Grécia e teatro em todo lugar

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Top Of The Lake é uma nova série (a bem da verdade, minissérie, na lógica da televisão americana) do Sundance Channel, estrelada por Elisabeth Moss, de Mad Men (aqui uma espécie de Clarice Starling/ Jodie Foster), e escrita e dirigida por Jane Campion – aquela, do inebriante Brilho de Uma Paixão e, claro, de O Piano.

(E alguém aí tem revisto O Piano para constatar que é, mesmo, uma beleza? E que Anna Paquin de uma certa forma merecia mesmo aquele Oscar, em sua tenra idade?)

O resumo poderia ser: nas desconcertantes paisagens da Nova Zelândia, uma trama policial é pano de fundo para um desfile de personagens bizarramente consistentes. Mas o que mais chama atenção, transcorridos os três primeiros episódios, não é nem a fotografia gelidamente sensual ou os atores tinindo, mas a maneira como a organização da dramaturgia de Top Of The Lake abre dezenas de pequenos cortes superficiais na pele do drama, sem necessariamente enfiar a faca em nenhum deles. Ao menos por enquanto.

Antes de pensarmos que esse expediente torna a minissérie, por assim dizer, “superficial”, ele é o que aquece seu cerne. O convidativo universo incomum de cada personagem se desenrola em doses equilibradas, deixando o espectador lenta e progressivamente curioso e instigado.

Top Of The Lake não só opera num tempo ralentado, como às vezes mira-se no estritamente banal, ao mesmo tempo que se organiza ao redor de acontecimentos nada corriqueiros. Mas é daí, supomos, que vem sua intensa estranheza. E sua atração. Ao menos por enquanto.

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É curioso observar as aventuras e desventuras de cineastas de uma determinada geração do cinema europeu surgida no fim dos anos 90. A começar pelo fato de que nada os aproxima como “geração”, a não ser o tempo cronológico em que começaram a se destacar em festivais de cinema e salas “de arte” mundo afora. E, talvez, nos dois exemplos que nos interessam, a maneira como foram mantendo-se fieis a si mesmos, por caminhos que muitas vezes os afastaram de sua origem.

Até valeria, como blague, pensar quais podem ser os pontos de contato entre o cinema do dinamarquês Thomas Vinterberg e do francês François Ozon. O primeiro explodiu com Festa de Família (1998), tentou a sorte no cinema americano, assinou poucos filmes nos últimos 15 anos. O segundo é um artesão prolífico de uma cinematografia prolífica e já pôs a mão em gêneros e elencos os mais variados.

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Ambos, no entanto, parecem ter se aprumado em seus trabalhos mais recentes, sincronicamente em cartaz nos cinemas brasileiros. Com A Caça, Vinterberg voltou às chamas ardentes da polêmica, tratando de pedofilia e abuso infantil. Ou, antes, tratando da gravidade que há na mentira e na (falsa) acusação serem tratadas como brincadeira de criança.

A paranoia, o bode expiatório, o medo do outro expurgando nosso próprio pavor de nós mesmos, o dedo acusador que cega os olhos para o acusado, a legitimação da covardia, as fragilíssimas máscaras do teatro da convivência. Homens feito bichos. Em algum lugar, The Crucible deve estar sendo encenado, Arthur Miller (e tantos outros antes e depois dele) sorri e Thomas Vinterberg volta a fazer um filme intensamente relevante. Que é habilmente manejado para amplificar seu discurso (“manipulador!”, gritarão os sensíveis), mas que o faz com potência, ainda assim.

Já Ozon, que com Dentro de Casa assina seu 12º filme desde a estreia em Sitcom (1998), revisita o espaço ficcional da literatura que abordara em Swimming Pool (2003) e orquestra uma obra que, para além de ser metalinguística, é sobre a metalinguagem.

No extremo oposto de A Caça, uma trama em que o importante é o manejo do drama e de suas viradas dentro da verossimilhança do realismo, aqui tudo gira em torno de um saboroso “jogo”, constantemente olhando para si mesmo e reconhecendo-se como “ficção” (ou, antes, “farsa”).

A rigor, os personagens de Dentro de Casa não existem (como nenhum personagem existe de fato na dimensão da “vida real”), mas é a forma como lidam com sua não existência que dá o tom, a graça e a qualidade.

Pareceu confuso? Pode ser um pouco. Mas que sirva, então, de convite.

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Naquela sempre inevitável chave de cruzar tudo o que há com tudo o mais que há, notemos que o ator Madds Mikkelsen, protagonista de A Caça, troca o figurino de vítima pelo de algoz na estreia, essa semana, de uma nova série americana, intitulada simplesmente Hannibal. Que, sim, é exatamente sobre ele, Hannibal Lecter.

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Ficção, da Cia Hiato de teatro

Enquanto isso, no teatro, o Festival de Curitiba apresenta, essa semana, espetáculos que já se provaram imperdíveis em suas cidades de origem. Entre eles, Ficção, da Cia Hiato (um dos mais notáveis casos de excelência artística surgido no teatro brasileiros dos últimos anos).

Os solos do projeto se apresentam na capital paranaense e, em seguida, fazem temporadas simultâneas em São Paulo (no Centro Internacional de Teatro ECUM) e no Rio de Janeiro (na Caixa Cultural)  durante o mês de abril. Já que o assunto é metalinguagem (não que Ficção seja, nem de longe, somente isso).

Exclusivamente em São Paulo, o que vale o tempo, as sinapses e a ida até a Barra Funda é Universos, texto do britânico Nick Payne hábil e delicadamente dirigido por Zé Henrique de Paula, em seu Teatro do Núcleo Experimental.

Atuada com nuances e vigor por Thiago Ledier e Renata Calmon, essa “peça quântica” elabora uma espécie de metalinguagem cosmológica. Termo que, justamente por não querer dizer nada em específico, elucida as múltiplas reverberações que são possíveis no espectador (ouso dizer, mais múltiplas e possíveis do que o intrinsecamente natural a qualquer obra artística).

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Pelo que se experimenta ali no transcorrer da experiência, como teatro, em primeiro lugar. Mas principalmente pelos convites metafísicos que, em sua aparente banalidade, Universos vai fazendo, durante e depois. Como quem faz um cafuné intelectual.

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Se você é cinéfilo e sentiu uma corrente de vento inesperada nos últimos dias, sem saber exatamente do que se tratava, a explicação mais plausível é você ainda não ter visto o trailer de Before Midnight – a mais recente causa de calafrios mundo afora.

Mas se você preferir só descobrir na hora H o que aconteceu com Jesse e Celine nos últimos 10 anos, desde aquele final indescritivelmente espetacular de Antes do Pôr do Sol, então não dê play.

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Para encerrar, o Festival Sesc Melhores Filmes 2013 é sempre aquela oportunidade de recordar, com um gostoso atraso, aquilo que importou nos cinemas no ano anterior.

Essa semana, os atrasados tem uma chance de não perder (e os espertos de relembrar) A Separação, Febre do Rato, Era Uma Vez Eu, Verônica, Fausto, Tropicália, Eu Receberia As Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios e Pina 3D.

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Faça-se este favor! Demos sorte e PINA está entre os escolhidos do Festival SESC 2013.

Com especial ênfase e afeto em/ para A Separação e Pina 3D.

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