Ebert, Ésquilo, a vida pós Seinfeld e reinvenções perturbadoras

Ebert, Ésquilo, a vida pós Seinfeld e reinvenções perturbadoras

Os últimos anos do crítico de cinema norteamericano Roger Ebert são o que a pieguice mandaria chamar de “uma lição de vida”. Ele tornou-se um homem sem mandíbula e sem a capacidade de falar ou de comer. Por outro lado, tornou-se um ativista político no Twitter e nunca resenhou tantos filmes como no ano passado. Sua morte, dias atrás, abre um buraco inimaginável no pensamento cinematográfico de todos nós.

Eis, portanto, não só como elegia mas também como mola de reflexão, uma passagem simples e definitiva, como eram seus melhores textos (em tradução livre):

poster la dolce vita

Os filmes não mudam, os espectadores sim.

“Os filmes não mudam, os espectadores sim. Quando vi La Dolce Vita em 1960, eu era um adolescente para quem  ‘a doce vida’ representava tudo aquilo com que eu sonhava: pecado, glamour europeu exótico, o romance desgastado do jornalista cínico. Quando eu vi o filme novamente, por volta de 1970, eu estava vivendo em uma versão daquele mundo de Marcello; a Avenida North de Chicago não era a Via Veneto, mas, às 3 da manhã, a paisagem humana era tão colorida quanto, e eu tinha mais ou menos a idade do protagonista.

Quando eu vi o filme por volta de 1980, Marcello continuava com a mesma idade, mas eu tinha 10 anos a mais, tinha parado de beber e o enxergava não mais como um modelo, mas como uma vítima, condenado a uma infindável busca pela felicidade que jamais poderia ser encontrada, pelo menos não daquele jeito. Em 1991, quando eu analisei o filme frame a frame na Universidade de Colorado, Marcello parecia ainda mais jovem e se eu outrora o havia admirado e depois criticado, agora eu sentia por ele compaixão e amor. E quando eu vi o filme logo após a morte de Mastroianni, eu pensei que Fellini e Marcello haviam pegado um momento de descoberta e tornado-o imortal. Pode não haver de fato uma doce vida. Mas é necessário que descubramos isso por nós mesmos.”

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A propósito do olhar que as obras lançam sobre o mundo, e nós sobre elas, como nosso próprio filtro para o mundo, década após década ou, em alguns casos, século após século, os teatros de São Paulo ofertam agudos convites à reflexão.

No aclamadíssimo projeto Peep Classic Ésquilo (vencedor do Prêmio APCA 2012; vencedor do Prêmio Governador do Estado de SP 2012; finalista do Prêmio BRAVO!; eleito pelo jornal Folha de SP a Melhor Estreia Nacional de 2012), o dramaturgo e encenador Roberto Alvim mais do que adapta, reescreve as sete tragédias de Ésquilo, o mais antigo tragediógrafo grego a sobreviver até nossos dias.

E o termo “reescrever”, aqui, associado aos espetáculos, vai muito além do texto. A gramática cênica que Alvim e sua companhia Club Noir aplicam às peças é radical. Essa ausência de concessões invariavelmente desloca o espectador para um lugar de acentuado desconforto, mas é disso, afinal, que se trata uma arte que está alargando limites. Mais: que está procurando modos fundadores da experiência estética e intelectual, à luz do tempo em que se insere. Para o bem ou para o mal.

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Ésquilo no Club Noir de Roberto Alvim – imagem: Julieta Bacchin – e no Teatro Augusta, com Mallu Galli (divulgação)

Na mesma rua Augusta onde fica a sede do Club Noir, alguns quarteirões acima, a montagem carioca de Oréstia, um condensado das mesmas três últimas tragédias (AgamenonAs Coéforas e As Eumênides) do mesmo Ésquilo, dirigido por Mallu Galli, maneja elementos cênicos muito distintos para traçar caminhos igualmente ávidos pela reinvenção. Ou, se o termo soa muito pretensioso, pode-se dizer que a avidez é simplesmente pela pertinência. No sentido de pensar – e convidar o público a fazê-lo – onde se insere a tragédia grega na arte do presente.

Com elenco afiadíssimo e uma das luzes mais deslumbrantes que esse signatário já viu em teatro, o eixo estético central de Orestia é, não obstante, o uso de músicas inéditas, compostas para a montagem, que modernizam a função da voz musicada do fatídico “coro grego” – canções essas que partem do texto original do dramaturgo.

Em um certo sentido, portanto, Oréstia faz uma ‘tragédia musical’, no sentido mais literal do termo. E esse artifício em si fundamenta e justifica o projeto. Trabalho esse, musical, confiado aos músicos Rômulo Fróes e Cacá Machado, vale dizer.

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Peep Classic Ésquilo está no Club Noir (sextas e sábados às 20h e domingos às 19h – últimas semanas) e Oréstia no Teatro Augusta, até 26 de maio (sextas e sábados às 21h e domingos às 18h30).

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Em chave muito, mas muito distinta, uma pergunta que obras muito clássicas suscitam é: o que vem/ pode vir depois?

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A tarefa não era lá muito fácil, mas voilà: Julia Louis-Dreyfus sobreviveu à Elaine

Julia Louis-Dreyfus é a única atriz do quarteto de Seinfeld (uma das séries de televisão mais clássicas de nosso presente) a manter-se intensamente ativa, buscando onde pousar a vida após um incontornável ápice. Um ou dois fracassos televisivos, em mais de uma década, trouxeram-na a Veep, série produzida pela HBO americana e que chega, agora, à sua segunda temporada.

http://youtu.be/mD2LBsAP3-s

Tudo no seriado é tão perfeitamente afiado que fica difícil escolher pelo que se entusiasmar mais. É um deleite retumbante, um manual de como rir da política, de como politizar o riso, do que acontece quando os melhores roteiros encontram os melhores atores e a melhor realização possível. Para dizer o mínimo (pela série, Julia venceu o Emmy de melhor atriz de comédia, em 2012).

A propósito da atriz em Seinfeld, eis um divertimento que vale a visita: 30 Exemplos de como todos nós somos Elaine Benes.

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E os trailers da semana levantam duas dúvidas dilacerantes:

O que acontece quando o mais rococó e hiperbólico dos cineastas encontra a mais austera e sofisticada obra literária (para refilmá-la)?

E o que acontece quando a diretora de um primeiro e único sucesso (Meninos Não Choram – e lá sa vão 14 anos!) refilma um clássico de Brian De Palma, com a atriz “mirim” mais inacreditável de todos os tempos (e, de quebra, com Julianne Moore)?

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E por falar em refilmagens e reinvenções, alguém aí já teve curiosidade de dar uma olhada em Bates Motel, a nova série que conta a velha história (do ponto de vista pregresso, nesse caso) de Norman Bates e sua mãe? Cheira a tacada de mestre ou a desastre, com pouco espaço para meio tons.

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