No longa Cores, vidas desbotadas sobre tempos mortos

No longa Cores, vidas desbotadas sobre tempos mortos

Às vezes parece que o tempo tem dupla duração. Uma duração lá fora e outra aqui dentro. Ou se morre de trabalhar ou se morre de tédio“.

Em nuances de cinza, o longa Cores, dirigido por Francisco Garcia, conta a quase não-história de um grupo de amigos nascidos em meados de 80 (a década que queria ser colorida e não foi). Adultos dos anos 2000 que – diferentemente de outros – apenas observaram o crescimento econômico brasileiro sem de fato pertencer a ele. O trio de protagonistas formado por Luiz, Luara e Luca é um pedaço de geração que se sente o parágrafo mal escrito de uma história iniciada há tempos. Eles não têm heróis, fé, lutas ou paixões: pairam entre sub-empregos e tragadas de cigarro, vivendo por inércia em uma “era de pós-tudo”.

cores o filme

Os papéis interpretados pelos atores Simone lliescu, Pedro di Pietro e Acauã Sol dividem 90 minutos com lugares que, sem necessidade de fala, atuam bem ali onde as expectativas não têm espaço para pousar. Cada cenário da filmagem tem o poder de um bom diálogo: uma farmácia emprega quem precisa de droga como matéria prima, uma loja de aquários cuja vendedora está presa embaixo d`água, um estúdio de tatuagem frequentado só por tatuador e nenhum cliente, um terraço ao lado do aeroporto que não faz ninguém voar.

_ Trabalhar é uma bosta.
_ A gente se acostuma.
_ A gente envelhece antes de se acostumar.

cores o filmeNa poltrona do cinema, nos tornamos espectadores de um marasmo que, em Cores, felizmente sabe ser poético. O tempo dilatado, a imagem quase sempre estática, a luz e as composições nos guiam por uma espécie de haute couture econômica.

A beleza visual do filme estende a mão para que o espectador navegue entre sucessivos tempos mortos, consciente ou inconscientemente esperando por algo que não vem. E que não faz falta à trama, enxuta por opção: o enredo mira de forma certeira nos personagens desbotados e em suas rotinas sem perspectiva.

cores o filmeAs músicas, diegéticas ou não, estão fortes e bem marcadas. A textura fotográfica nos faz esquecer a tela. A “velha” (Maria Célia Camargo) suaviza o enredo com doses precisas de algum humor e ternura.

Mas a mão pesada é definitiva quando o diretor, estreante em longas, se recusa a ter benevolência com os personagens. Luiz, Luara e Luca não conseguem transpor o contexto onde vivem, e o olhar sobre eles vem como um nocaute – que pode empurrar o espectador para frente ou para trás, jamais deixá-lo inerte.

Em texto sobre o filme, o crítico José Geraldo Couto relembrou Manuel BandeiraTodas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir. A reflexão que perdura é insistente. Afinal, quando tanto se diz que “um homem sem trabalho não é um homem”, o que sobra para aquele que não gosta do que faz? A resposta, que o trio de Cores tanto procura, pode estar à volta. Os cenários do filme, como os contextos de qualquer vida, não tem uma única saída. Há neles, para além da opressão, caminhos possíveis de andar – não sobre tempos mortos, mas sobre tempos vivos e mais coloridos.

dança

Para assistir
O filme está em cartaz esta semana em:

SÃO PAULO _ Itaú Frei Caneca às 20h e Itaú Augusta às 19h
GOIÂNIA _ Cine Cultura GO, às 18h30
CURITIBA _ Espaço Itaú (DCP), às 17h30
PORTO ALEGRE _ Espaço Itaú, às 14 e às 18h

cores o filme

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