Ken Loach, um cineasta da política

Ken Loach, um cineasta da política

dora_drops

A estreia de A Parte dos Anjos nos cinemas brasileiros nos faz pensar em quão prolífico é Ken Loach. Além de ser autor de inúmeros documentários e programas para a televisão, Loach assina um respeitável número de longas metragens de ficção. A maior parte deles feitos nos anos 90 e 2000 – ou seja, nossos contemporâneos (e o jovem irá dizer: “nossos quem, caro amigo?”).

A estreia de A Parte dos Anjos nos cinemas brasileiros, portanto, nos convida a um divertido jogo: quantos Ken Loachs você já viu? E qual(s) é(são) o(s) seu(s) preferido(s)?

a-parte-dos-anjos

A Parte dos Anjos, mais uma parceria de Loach com o roteirista Paul Laverty

Loach é um cineasta da política. E o termo, aqui, há de ser entendido em seu sentido mais amplo e amplificador: políticas são todas as relações entre seres humanos. Todas – incluindo as de amor. Mas, claro, isso faria de todos os filmes “filmes políticos” e o termo, aqui, é também bastante específico: Loach é o cineasta do choque. A ele não parece interessar o retrato de um mundo onde não haja estranhamento, abalos, peças soltas, fagulhas e faíscas.

As relações, em seus filmes, estão sempre no fio da navalha, mesmo que a história seja uma divertida comédia. E essas relações são entre pessoas, entre elas e suas famílias (pode haver relação mais política do que essa?), seus patrões, empregados, governos, etnias, religiões. Loach é um artista que olha (e questiona) todas as normatizações, inclusive – e principalmente – as do amor. Qualquer tipo de amor.

Nesse sentido, Ken Loach é também um cineasta intensamente social, na medida em que nos faz ver que não há personagem, conflito ou história desvinculados de sua conjuntura. Parece óbvio, mas não é.

Por exemplo, em Pão e Rosas (2000), uma história de amor fraternal que é uma não menos aguda crônica sobre o trabalho e o mal estar capitalista. Ou Apenas um Beijo (2004), romance que se desenrola em um angustiante drama de intolerância racial.

E, como dizíamos lá no início, Ken Loach é prolífico. Então seu cardápio de política, sociabilidade e relações humanas assentadas sobre choques dialéticos (mesmo que a dialética seja massacrada entre os personagens, queremos crer que ela em algum nível se dá com o público) oferece vastas e variadas opções.

Procure a dureza trágica de Meu Nome É Joe (1998), o humor inesperado e saboroso de À Procura de Eric (2009), ou o libelo exasperado (e até mesmo razoavelmente unidimensional) que lhe valeu a Palma de Ouro em Cannes, Ventos da Liberdade (2006).

http://youtu.be/te8wDO8FmGI

Se o foco for nos ‘clássicos’ do diretor, gaste um fim de semana com Riff-Raff (1991), Ladybird Ladybird (1994), Terra e Liberdade (1995) e Uma Canção Para Carla (1996).

E, indo além, vale descobrir nesse vasto mundo virtual os filmes de Loach que jamais tiveram lançamento comercial no Brasil, como The Navigators (2001), It’s a Free World (2007) e Tickets (2005), este último dirigido em parceria com Abbas Kiarostami e Ermanno Olmi.

Vá e volte mais profundamente político, se puder.

Linha_750px_06

Compartilhe: