Marnix Goossens e o (mau) gosto na fotografia

Marnix Goossens e o (mau) gosto na fotografia

Gosto de dividir o mundo em três tamanhos para pensá-lo e buscar entendê-lo melhor. O primeiro tem uma escala enorme e mostra a Terra como palco de sucessivos processos geológicos e climáticos que a transformam com beleza e brutalidade. Já quando visto bem de perto, o mundo se enche de detalhes – naquele exato plano em que as pessoas ganham nomes como Sofia ou Aurora, escolhem um penteado mais contido ou mais soltinho e têm um jeito próprio de marcar a página do livro que estão lendo. Há, por fim, uma escala intermediária, na qual o mundo não se mostra de tão longe mas tampouco dá muito espaço para a intimidade (tamanho que, na arte, seria chamado de panorama ou landscape).

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É na observação e idealização deste plano intermediário que muitas vezes buscamos a beleza e a inspiração. A arte, em contrapartida, vem evitando o tema nas últimas décadas, pois considera que o belo como objetivo puramente estético já não interessa mais. É exatamente aí, porém, que reside o foco de Marnix Goossens, artista holandês em cartaz no FOAM (Museu da Fotografia de Amsterdam).

MarnixConhecido por evocar a beleza em imagens incomuns, Goossens apresenta agora seu projeto Yonder. Sempre atento e cauteloso com o papel desgastado das landscapes na arte, Marnix desloca grandes paisagens para o contexto íntimo das cortinas, dos pisos, das quinas de parede ou até mesmo das gotas no vidro de uma casa. Contrapondo o frescor do tema à claustrofobia dos pequenos ambientes, o artista trabalha em cima das nossas expectativas e valores mais primários.

O (conceito de) belo é suspeito. O belo como um objetivo na arte é quase tão ruim quanto a ornamentação que o arquiteto austríaco Adolf Loos denominava “crime”. No entanto, de acordo com o escritor John Berger em seu ‘Ways of Seeing’, os amantes da arte consideram que, entre todos os valores passíveis de se creditar a uma obra artística, a beleza ainda encabeça a lista. Mas que tipo de beleza?” _ Tineke Reijnders, crítica de arte

As composições de Goossens são minimalistas e cuidadosas. Retratam partes das casas onde não há uma bela vista, uma decoração milimetricamente pensada ou vestígio de moradores. São fotografias morosas, evidenciando um certo gosto kitsch e por vezes abandono dos ambientes retratados. Mas, ainda que algo de artificial e asséptico pareça comum a todas as imagens, podemos enxergar vida naqueles fragmentos domésticos.

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O artista holandês evidencia o tédio que muitas vezes sentimos em nossos abrigos urbanos e como nos entregamos com exaltação decorativa à natureza: as janelas estão sempre fechadas contra o vento e a chuva, mas a decoração traz elementos bucólicos. Está em pauta nesta contradição o nosso escapismo – e se a ele Goossens lança um olhar mais sarcástico, ao suposto mau gosto dos lares não vemos o mesmo. Afinal, podemos imaginá-lo em uma busca apaixonada pelos cantos mortos das casas, esses espaços de promessas ao avesso. Somos, por fim, desarmados pela sinceridade com que ele fotografa aqueles objetos e mergulhamos despidos de gosto em suas texturas, desgastes e estampas.

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