Jennifer Lawrence em O Lado Bom da Vida

É Carnaval, vá ao cinema!

É Carnaval, vá ao Cinema!

Já que janeiro foi esse mês vertiginoso em estreias cinematográficas de qualidade, o momento é de aproveitar. Porque é quase certo que, daqui pra frente, fiquemos numa tradicional lamúria de “que ano de filmes fracos!”. E, quando estivermos lá, é bom que lembremos daqui.

Se você está realmente atrasado, comece por As Aventuras de Pi, uma estreia ainda de dezembro. Porque apesar de um tom demagógico que paira ali na  “espiritualidade de cartilha”, a ressonância da dramaturgia é furiosa. E essa dramaturgia, entendamos, não está só nas palavras escritas, mas na refinada estrutura visual que Ang Lee ergue para contar a história. É ela que ressoa e ressoa, semanas e semanas após a projeção.

• Como complemento, chegue em casa e reveja Razão e Sensibilidade, o primeiro filme ocidental do diretor. Para lembrar que amamos Emma Thompson, Kate Winslet e Jane Austen. Juntas.

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Se você ainda não viu Argo, não sou eu que vou dizer para você fazê-lo. Porque eu gostaria que você não acreditasse que esse é “o melhor filme do ano”, como os prêmios estrangeiros (e provavelmente o Oscar, daqui a duas semanas) querem fazer crer. Porque não é, nem nunca será.

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Amor

Amor

Já  Amor, um Michael Haneke ironicamente açucarado (em todo seu amargor) é silenciosamente retumbante. Não tanto pelo que é como cinema, mas porque nos escancara o que vivemos preferindo esquecer. E que, ao nos deprimir, nos tumultua. Atingindo, portanto, o efeito de grande arte, mesmo sem sê-lo (ou, justamente por isso, sendo-o?).

• Para lembrar do que Haneke é capaz, chegue em casa e reassista a Código Desconhecido e a A Fita Branca.

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Se o cinema europeu cruamente realista e de tintas dolorosas te faz se achar um espectador inteligente e profundo, você precisa logo de um antídoto, antes que comece a se convencer. E ele se chama Detona Ralph. Por falar em organização de linguagem, aqui temos um banquete de competência dramatúrgica (sem brincadeira, é uma aula de roteiro!) e de sofisticação narrativa, disfarçado de filme para criança. Personagens sensacionais, uma história deliciosa, suculenta rede de referências pop (e o que é a vida senão um emaranhado de referências pop?), preciosismo visual e, bom, por aí vai.

• Esse é um programa que não precisa ser completado com nada –  e que ainda te faz jogar na vala da mediocridade coisas como Valente e outras animações recentes. Só vá para casa e durma feliz – mas, ah!, faça o possível para assistir à versão legendada. Não deixe qualquer dublador te roubar o prazer de ouvir John C. Reilly, Sarah Silverman e Jane Lynch.

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Sobre Django Livre, parece notícia velha dizer o que quer que seja. Então digamos somente que continua assombroso o nível de onde parte Tarantino, em termos de manejo das ferramentas. E que Samuel L. Jackson é a melhor coisa do filme (se você conseguir achá-lo) – e está aí, subnotado pelos prêmios de plantão.

• Se você quiser considerar Django um filme menor, bom, existe uma verdade universal que é: Bastardos Inglórios nunca cansa.

Tarantino

Tarantino

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O Lado Bom da Vida soa como a esquizofrenia de um realizador, um perfeito morde e assopra da direção cinematográfica. David O. Russel gesta personagens excelentes para atores excelentes, dá a eles grandes momentos, mas ao mesmo tempo os oprime em alguns maneirismos e afetações (de fotografia, de edição, etc) e os abandona em uma história bem menos que excelente, contada com relapso.

Jennifer Lawrence deve ganhar o Oscar, tadinha (porque um Oscar aos 22 anos acaba com a carreira de qualquer um, talvez só não de Jodie Foster), e é bem saboroso vê-la em embate com Bradley Cooper, De Niro, Jacki Weaver e outros coadjuvantes. Mas o todo é tão descartável que dá até pra chorar – e o que é a vida de um espectador a não ser a descartabilidade de produtos ‘pop’ como esse?

Jennifer Lawrence em O Lado Bom da Vida

Jennifer Lawrence em O Lado Bom da Vida

• Talvez o segundo longa metragem de David O. Russel, Flirting With Disaster, valha uma redescoberta: tem Ben Stiller, Tea Leoni, Alan Alda, Lilly Tomlin e Mary Tyler Moore no elenco.

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Lincoln parece uma patriotada, mas não é só. É, acima de tudo, o texto afiado do dramaturgo Tony Kushner, dignificado por uma miríade de intérpretes obviamente capitaneados pela transformação sobrenatural de Daniel Day Lewis. E se Sally Field está subescrita, a Tommy Lee Jones é presenteada uma reluzente cereja no bolo. Ele que não esqueça de agradecer a Kushner quando subir para pegar seu Oscar.

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Que essa avalanche de ‘filmes de Oscar’ não deixe que esqueçamos que em janeiro já ouve o gigantismo de O Som Ao Redor, um filme que nos justifica.

Bem como O Mestre, que está e não está no Oscar, que é uma obra prima, que nos afoga nos olhos de Joaquin Phoenix – mas a Paul Thomas Anderson voltaremos em breve.

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Herzog por Bil Zelman

Herzog por Bil Zelman

Deixando por último o mais importante, há um filme escondido nos becos do circuito que não pode em hipótese alguma ser negligenciado, no cinema, agora, hoje. Porque Caverna dos Sonhos Esquecidos é um mergulho profundo – e de ressonâncias insondáveis – de Werner Herzog para dentro da História e de nossa ancestralidade. Um convite a um hipnótico estado de contemplação da condição humana, disfarçado de passeio frugal de parque de diversões, fazendo uso artístico e, mais ainda, científico-filosófico do 3D.

Simples, direto, sentimental (quase sentimentalóide, poderiam acusar os detratores), mas até por isso contundente e devastador. Capaz de alterar nosso estado de percepção e nossa autoconsciência tanto quanto Amor, mas através de uma jornada muito outra, humana e cinematograficamente.

Ou, em palavras do crítico Cássio Starling Carlos: “Face à evaporação da distância entre o arcaico e o futurista, emerge a questão essencial: o que deixamos de ser e o que ainda somos? Dentro da Caverna dos Sonhos Esquecidos o diretor volta as origens de seu cinema e da humanidade com um espetáculo assombroso.”

• E se é para falar em pintura, corra até o Museu de Arte de São Paulo (MASP), porque lá está Mulher de Azul Lendo Uma Carta, só até o próximo dia 12. E um Vermeer, como sabemos, vale uma vida.

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