Oscar: relevância cultural

Oscar: relevância cultural

dora_nota

 

Para os mais desavisados, o Oscar acontece nesse domingo agora, dia 24.

É uma pena – ou uma sorte? –, mas não há como fugir do assunto da semana. E, se você espera previsões, desculpe decepcionar: o máximo que temos, aqui, é uma aguerrida torcida para que Joaquin Phoenix seja o azarão da noite, para que tenham a consciência de saber que um prêmio desses, a essas alturas, vai destruir a carreira de Jennifer Lawrence, e para que saibam que Argo, bem, Argo é um filminho mediano e irrelevante, que se desmanchará no ar – embora isso eles jamais saberão.

Ou, como muito adequadamente colocou José Geraldo Couto (leia A Mediocridade Reluzente do Oscar), o fato de um filme mequetrefe como O Lado Bom Da Vida receber esse monte de atenção (e de David O. Russel ser de fato um concorrente com chances ao prêmio de Melhor Diretor) só comprova os preocupantes picos de irrelevância cultural que o Oscar tem atingido.

Será será será será

Será será será será

Não estávamos falando de Argo? Estávamos. Mas repare como tudo se completa.

Sim, esse papo de que o Oscar é um prêmio autocelebratório do qual não se pode esperar seriedade artística é a cantilena habitual. Mas não estamos falando necessariamente de Arte e sim de Relevância Cultural, dentro da própria lógica da indústria e da penetração do cinema como cultura de massa na vida das pessoas.

Oscar 2013

Então vejamos o que o Oscar fazia há 20 anos. Alguém se lembra quem foi a melhor atriz coadjuvante de 1993 (há essa piada recorrente de que ninguém nunca se lembra quem foi a melhor atriz coadjuvante, de qualquer ano que seja)? Marisa Tomei, por Meu Primo Vinnny, entrando para a história como paradigma das surpresas que o Cinema sempre guardará a seus fiéis (e ainda há quem diga que Jack Palance leu o nome errado no envelope).

Mas 1993 foi acima de tudo o ano em que os colegas redimiram Clint Eastwood com a consagração de seu Os Imperdoáveis – até hoje um filmão, por onde quer que se olhe.

E há 15 anos? Nada menos do que a avalanche de Titanic. E alguém nega o iceberg cultural (perdoem o infame e inevitável trocadilho) que esse filme foi e é?

A atriz coadjuvante laureada, diga-se, foi a desaparecida Kim Basinger, por Los Angeles – Cidade Proibida, batendo a veteraníssima Gloria Stuart, que concorria pelo filme do transatlântico (mais alguém aí pensou em Jennifer Lawrence vencendo Emanuelle Riva, muito em breve?).

Dez anos atrás? Chicago. E duas zebras estarrecedoras, daquelas em que justiça torta é feita por linhas retas: Roman Polanski e Adrien Brody foram ambos premiados por seus trabalhos em O Pianista (mais alguém aí pensou em Michael Haneke, 2013?).

Lembrando, Catherine Zeta Jones foi a melhor atriz coadjuvante (no ano em que a enorme Julianne Moore concorria nas categorias coadjuvante e principal, por As Horas e Longe do Paraíso, respectivamente – nesta última perdendo para Nicole Kidman).

Mas, vai, aposto que a melhor atriz coadjuvante de 2008 está fresquinha em sua memória, não está? Tilda Swinton, por Conduta de Risco (um Oscar justificado por aquela exasperante cena final).

Enquanto os irmãos Coen, ninguém menos, levavam por Onde os Fracos Não Tem Vez.

Por essa amostragem assim aleatória, portanto, tende-se a crer que a tal desimportância do Oscar, nos últimos 20 anos, está mais nos detratores do que nos fatos em si.

renee-richard-gere

Renee Zellweger e Richard Gere

Os Imperdoáveis, Titanic, Chicago e Onde os Fracos Não Tem Vez são filmes indesviáveis (e levante a mão quem não tem um naco de memória afetiva de e com pelo menos um deles).

Mas, claro, também não se pode esquecer que houve anos tenebrosos, como 2001 (Uma Mente Brilhante?) 2005 (Crash??) e 2010 (O Discurso do Rei???).

Ou quem sabe esses filmes, por piores que soem na memória, não sejam amostras perfeitas de seu tempo – e revê-los dar-nos-á, se é que já não nos dá, uma representativa dimensão do que foram seus momentos e contextos, ainda que sob a perspectiva estadunidense do mundo.

(Se bem que… Uma Mente Brilhante? É, não.)

A história fará de Argo um filme a se lembrar ou o Oscar fará com que a história se lembre de um filme mais potente, mais interessante, mais arriscado, mais profundo, mais ‘artístico’, mais relevante, seja ele qual for (nesse que foi visto, de modo geral, como um ano de lançamentos fortes e qualificados)?

E, em tempo: Anne Hathaway deve levar seu Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por cantar ao vivo e em um take a icônica “I Dreamed a Dream” (mais alguém aí pensou em Susan Boyle?!)

Pergunta: quanto tempo levaremos pra esquecer?

dora_curte

Sugestão: Por falar em Anne Hathaway, de longe a melhor e mais insuperável piada dessa temporada de prêmios. Permitam-se este prazer:

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