Elena e as dores que viram água

Elena e as dores que viram água

Das fases da vida, há uma que é, de todas, a mais aquática: o mergulho no fim da adolescência, cujo retorno à superfície obriga a respirar vida adulta. Foi dessa época que Elena, personagem que dá título ao documentário-poema lançado em maio deste ano, não conseguiu sair. E foi nela que sua caçula Petra Costa, diretora do filme, nadou para concretizar uma carta de amor à irmã e à mãe das duas, Marília. Iniciado como um ato de bravura para enfrentar os próprios fantasmas, o trabalho gerou uma narrativa que representa Elenas, Petras e Marílias diluídas pelo mundo – outras tantas mulheres que temem se desfazer em gotas no momento de tomar as rédeas da própria trajetória.

Petra e sua mãe Elena

Petra bebê aninhada em sua irmã Elena

Estou adoecida de amor
Põe a mão em mim
Que eu viro água

_trecho do “Corpo de Baile” de Guimarães Rosa, interpretado por Elena Costa

Em conversa com o público no centro cultural B_arco, em São Paulo, a diretora mineira falou sobre o trabalho que recebeu prêmios em festivais nacionais e internacionais. Mais do que questões técnicas, porém, contou o quanto de força é necessário para revirar baús de lembranças. Especialmente nos seus, em cujos compartimentos guardava uma dor pouco discutida no Brasil – a do suicídio, fim da irmã que sonhava em ser atriz. Ao longo dos 30 anos recém completados, nunca foi fácil para Petra encontrar quem se dispusesse a falar sobre a morte sentida por ela aos 7 anos. Foi nas entrevistas para o roteiro de Elena (feito em parceria com Carolina Ziskind), que falou pela primeira vez com gente que, assim como ela e sua mãe, haviam encarado essa saudade imposta. Sobreviventes de memórias inconsoláveis* podiam enfim se reconhecer.

O documentário produzido pela Busca Vida deu vazão a palavras não ditas com uma mistura de vídeos de arquivo da família e imagens encenadas por Petra e Marília, protagonistas na tela e na realidade. O resultado dessa fórmula ficou etéreo e intimista, e sobretudo úmido de lágrimas. É uma história que reverbera por dias, ganhando ainda mais profundidade à medida que cada um deixa escorrer Elena na própria vida. Como no caso da jornalista Eliane Brum, para quem Elena falou alto sobre a importância de uma mulher se individuar: não apenas Petra, enrolada entre fios de mãe e irmã, mas também qualquer uma que ao enfrentar o próprio crescimento tenha aceitado se desamarrar do mundo para senti-lo com mais força.

Elena - O filme

Os 82 minutos do documentário levam à superfície assuntos muitas vezes afogados em silêncios – e que por isso, quando revertidos em palavra e imagem, têm aspecto de epifania. Em Elena, o trânsito entre realidade e imaginação vem carregado de fluidez, revelando uma metáfora de mulheres feitas de água. Atravessadas por sonhos e desejos, as personagens fazem referência à frase de Bachelard de que “todo ser de água é também de vertigem”, e ainda reparam um esquecimento percebido por Petra: “Sentia que as mulheres como Elena, que levam o arquétipo da Ofélia de Shakespeare, eram sub-representadas no cinema”, disse durante a conversa com o público.

Imenso prazer que vem acompanhado da dor.
Me afogo em você, em Ofélias.

_Elena Costa

Quando criança, Petra não acreditava em Papai Noel – apenas na Pequena Sereia. O choque veio quando a irmã mais velha lhe contou a história original, fora dos contos da Disney: mutilada pela decisão de ganhar pernas, a personagem morria antes de ser exatamente quem desejava. Elena, a seu modo, tampouco sobreviveu ao próprio sonho de virar atriz em uma Nova York que mais parecia mar revolto. Apesar disso, a diretora insistiu em vencer o medo das mulheres que não conseguiam deixar de ser adolescentes para serem adultas. Conseguiu. E com domínio pleno das pernas, dançou sozinha com a lua.

Elena - O filme

O documentário toca nas tristezas comuns a todas as pessoas, muito embora o caráter da história seja pessoal e particular – “Elena é choro forte, é um choro grande”, diz Petra. Oferece um sinal de alento, no entanto: aos que aguentam a espera, até mesmo as piores dores ganham novo lugar. A escuridão dos pensamentos pode, sim, ser cíclica – sempre há um ponto em que o farol retorna sua luz para a beira da praia. “Dores viram água”, diz a diretora enquanto toma ininterruptamente o líquido. Ao que, dando-se conta, sorri: “Alguém me falou que para sonhar à noite é bom beber muita água”. E assim o faz, levando o público a sair do encontro com um pouco mais de vertigem sob os pés.

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Para saber mais:
_Onde o filme está em cartaz? Aqui.
_Petra, uma mulher em busca do próprio corpo: texto de Eliane Brum publicado na Época.
_Olhos de Ressaca, curta metragem da diretora Petra Costa em que ela conta a história de seus avós.
_B_arco, o centro cultural onde aconteceu a conversa com a diretora, tem um site cheio de programações.

* O termo memórias inconsoláveis chegou a Petra pelo livro Hiroshima, mon amour, de Marguerite Duras. Deu origem ao Prêmio Memórias Inconsoláveis, que escolherá os melhores trabalhos de vídeo, poema, música ou fotografia que tratem do assunto. As inscrições vão até o dia 31 de julho e o regulamento pode ser lido no site do filme.

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