Mapas e memórias de mãos dadas: uma expedição ao redor

Mapas e memórias de mãos dadas: uma expedição ao redor

O apelo real dos mapas não está tanto nas histórias do passado, mas sim no fato de concentrarmos nossas emoções em uma essência parcimoniosa – e todo poeta sabe que são os sentimentos colocados dentro de um limite que geram a expressão mais pura.” __ Adam Gopnik, sobre o projeto Mapping Manhattan

expedição ao redor

“É… isso vai ser mais difícil do que eu pensava.”

Mapas e memórias andam de mãos dadas pelas cidades. E especialmente em torno do lugar onde se mora, cada esquina une bem mais do que duas ruas: é um contínuo cruzamento de lembranças, que vão de uma declaração de amor a uma despedida. Pois foi consciente de tudo que o caminho para casa concentra que a artista plástica Louise Kanefuku iniciou a Expedição ao Redor, uma cartografia de Porto Alegre guiada pelo afeto.

O embrião do projeto surgiu em uma aula no Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Falava-se sobre o ilustrador Eloar Guazzelli e suas cidades imaginárias: em folhas A4, ele esboçava prédios, ruas e parques que depois unia em um único mapa – enorme papel de tons urbanos. Louise primeiro se agradou da ideia de construir uma cidade fictícia, talvez pressentindo que o espaço urbano colocaria inúmeros desafios. Desistiu da imaginação, no entanto: resolveu desenhar realidades.

Definiu que sua Expedição ao Redor deveria ser feita de experiências, deixando de lado os traçados “oficiais” da cidade. Para Louise, qualquer mapa é uma interpretação humana sobre determinado lugar, de modo que além da exatidão de um Google Maps há sempre uma leitura de cada pessoa sobre a geografia local. Optou assim por mapear os lugares e trajetos que tinham relevância em sua vida. Acabaram aparecendo os caminhos cotidianos, que até então eram feitos sem muito reparo.

Expedição ao Redor

Quando comecei a desenhar meu mapa ao redor percebi que não sabia de memória como era a fachada do meu prédio ou o chafariz do parque aonde vou diariamente – por isso não conseguia reproduzi-los no meu desenho. Entendi na prática o conceito de `estranhar o que é familiar’, algo que eu havia estudado na etnografia.”

Sem acesso à cartografia já feita dos bairros, Louise notou que tinha se desabituado a prestar atenção nos trajetos diários. As saídas de campo, portanto, entraram em cena. Na primeira delas, levou papel e lápis. E enquanto desenhava o mercadinho ou o bar onde encontrava os amigos – além do tal chafariz do qual não lembrava o formato – deu-se conta do que significava desenhar em meio à cidade. Cada risco era uma descoberta sobre lugares tão vizinhos: “Pela primeira vez reparei na parte de cima das casas. Apesar de passar todos os dias pela farmácia, por exemplo, nunca tinha parado para olhar para seu segundo andar.” O mapa que ela encontrou, no fim das contas, era para se perder.

Desprezar a orientação é uma postura de ordem nômade que nos permite tocar o mundo com mais delicadeza e ternura. Não devemos almejar estabelecer marcos permanentes de nossa passagem, mas intensificar a qualidade de nossas experiências, onde resultado e processo se confundem.” __ Cadu, artista plástico, em catálogo da Fundação Iberê Camargo

Guazzelli

Guazzelli sobre uma de suas cidades imaginárias, em fotografia de Muzi

Para solidificar o estudo, a artista criou uma fanpage com o objetivo de interagir com os amigos. De lá vieram algumas referências importantes para a Expedição, sendo uma delas o Mapping Manhattanprojeto da norte-americana Becky Cooper. Ao lidar com mapas em um trabalho de faculdade, ela se obcecou pelos códigos que contavam histórias dos lugares. Assim iniciou uma cartografia coletiva baseada em experiências individuais: Becky imprimiu contornos bem simples de Manhattan e os entregou a estranhos pelas ruas, pedindo que rabiscassem o papel com as próprias vivências. Para sua surpresa, muitos desenhos voltaram pelo correio. E de narrativas íntimas sobre Nova York Becky fez o livro Mapping Manhattan: A Love (And Sometimes Hate) Story in Maps by 75 New Yorkers.

Mapping Manhattan

Desenhando os próprios caminhos, Louise Kanefuku compreendeu que as vidas feitas sobre as cidades eram o verdadeiro preenchimento dos mapas. Criando uma cartografia do que era importante no lugar onde morava, quis também estimular que as pessoas fizessem suas próprias expedições – vários retratos subjetivos, afinal, falariam muito mais sobre a cidade do que um traçado preciso das ruas. Além disso, descobriu em si um olhar estrangeiro sobre o que é de rotina: deixou de lado as memórias dos dias extraordinários para priorizar os dias-como-qualquer-outro. Sua Expedição ao Redor criou um traçado pessoal. E devolveu a Louise o verdadeiro caminho para casa.

dora_curte

Mais
__ Para ler a crônica Recordação, de Antônio Prata, que tem tudo a ver com o assunto > link
__ Para conhecer mais sobre o trabalho Mapping Manhattan:

Mapping-Manhattan-Doravante

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