Microcosmos arquitetônicos

Microcosmos arquitetônicos

Caro Fisch-pai,

Há alguns dias descobrimos um artista-arquiteto multifacetado e genial – e não poderíamos deixar de dividir isso com você. Friedensreich Hundertwasser era austríaco e o que gostamos em seu trabalho poderia ser resumido no conceito de arquitetura sustentável. Mas como este conceito é gasto e equivocado! Aposto que a primeira coisa que lhe vem à cabeça são esses grandes empreendimentos espelhados, que economizam água e energia, mas na prática são pouco ou nada sustentáveis. Não é nada disso.

Imagine, por exemplo, como seria transformar um prédio decadente, do centro de São Paulo, em uma construção sustentável. Muitos arquitetos rapidamente  proporiam sua demolição, jogando fora o entulho. Tudo seria refeito, e na frente do prédio haveria umas plantinhas e uma placa informando que a obra é ecologicamente correta. Mas e se, ao invés disso, ele fosse desconstruído artesanalmente? Nada de padrões de moradias populares de massa: uma construção cautelosa e manual, quase um quebra-cabeça. “Talvez esse tijolo não fique bem aqui, mas que tal ali do outro lado, invertido?”

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A frente da Casa, em Viena

Assim é a Casa Hundertwasser, em Viena. Um prédio de moradia popular transformado de forma orgânica em uma obra prima. Um andar tem varanda, outro tem uma janela pequena. Um apartamento tem sacadas, outro não. No processo de restauro, aparecem telhados e armações de demolição, que aos poucos são incorporados. Pode ser que uma janela seja decorada com azulejo, ao mesmo tempo que a outra tem lajota, ou talvez nada. Paredes vermelhas ou azuis, não importa. A mistura é o próprio design.

A construção que Hundertwasser planejou é uma casa de microcosmos e não de macro-construções, como as desenhadas por Niemeyer e outros modernistas – um exemplo dessa lógica é o Copan, que por trás da forma externa única e forte esconde um interior onde há pouco de particularidade em casa espaço. Todos esses prédios padronizados, cuja fachada não pode ser mexida, são sinal de uma visão de mundo: generalista, global, industrial, mecanizada e cega às diferenças. O grande diferencial do arquiteto austríaco está em compreender a individualidade humana dentro de sistemas complexos.

O entendimento de Hundertwasser vai pelo caminho da diversidade, do valor ao pouco, da construção coletiva e da compreensão de que o mundo é uma rede de conexões naturais e orgânicas. Aproxima-se de Gaudí pelos espaços de convivência que surgem nos telhados verdes de seus prédios. Aproxima-se, pelo toque artesanal de cada detalhe dos espaços, da Casa Pueblo feita por Vilaró no Uruguai e da casa de Estevão da Silva Gonçalves, em Paraisópolis (São Paulo).

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O terraço arborizado da Casa. Imagem: Kurt Pultar

Às vezes parece impossível pensar em qualquer coisa positiva para São Paulo – uma cidade com uma população tão numerosa que parece incontrolável, destrutiva. Porém, imagine a força potencial que existe aqui, se valorizarmos cada indivíduo como um microcosmo único e criativo. Há milhões de janelas diferentes para se pensar. Como numa imensa Haus de Viena, São Paulo também tem milhões de portas para serem abertas.

Abraços,

Tarifa-Fisch

PS.: Agradecemos à Lucia Py, que nos apresentou o artista. 

icone+ Informações sobre a casa e sua construção __ leia aqui

+ Filme sobre Hundertwasser __ veja aqui

+ Site em português sobre o artista __ leia aqui

+ Carlos Paez Vilaró __ site pessoal do multi-artista uruguaio

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