Que ônibus passa aqui?

Que ônibus passa aqui?

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Durante um almoço, Camila Tarifa e Victor Fisch notaram o pai dele muito pessimista com a humanidade. Como resposta, passaram a escrever cartas semanais pra ele, listando boas notícias e novidades estimulantes. A série de textos Cartas ao Fisch Pai vem sendo publicada no Doravante como colaboração dos cineastas para a seção Hmmm! do site.

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Caro Fisch-pai,

Esses dias vimos uma pesquisa apontando que 53% dos paulistanos não querem morar em São Paulo. Que coisa louca, não? Eles mal vêem a hora de ir embora! Como cuidar de uma casa, quando seus próprios moradores a abandonam (não física, mas afetivamente)? Pois pense: se você planeja vender a casa em que mora, mas precisa continuar morando ali por mais um ano, não vai querer fazer uma reforma, certo? Pode começar a cair o teto e você vai pensar: “bom, daqui a pouco eu me mando, não vou gastar com isso“.

Se mantivermos um pensamento análogo em relação à nossa cidade, torna-se impossível que nos apropriemos do que é público. Esses paulistanos insatisfeitos não querem enxergar São Paulo como deles. Preferem vê-la como dos outros, do Governo, dos ladrões, dos corruptos, dos empresários.

Mas não lhe escrevemos para trazer más notícias ou reflexões pessimistas, pelo contrário: vimos uma atitude que reflete justamente um caminho inverso a este, o projeto Que ônibus Passa Aqui?.

Embora seja muito comum encontrarmos pontos de ônibus sem informação alguma (horários, itinerários etc), normalmente não fazemos nada a respeito. No máximo perguntamos para aquela senhora, que parece ser a mais experiente dentre os que esperam, se tal ônibus passa por ali. Não é mesmo? Pois eis que uns jovens de Porto Alegre resolveram criar uma forma “faça você mesmo” de resolver a questão: eles bolaram um adesivo com os dizeres “que ônibus passa aqui?” e um espaço em branco abaixo. A intenção era estimular a própria população a preencher – e assim contribuir com o conhecimento coletivo, público.

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Grupo reunido na Vila Madalena, em São Paulo

Funcionou. A ideia rapidamente se expandiu e recentemente, articuladas pela internet, várias pessoas de diversas cidades brasileiras, como São Paulo, Recife, Curitiba, Brasília, Rio de Janeiro, entre outras (se quisermos citar todas ainda temos Florianópolis, Ribeirão Preto, Santa Cruz do Sul, Pelotas, Santa Maria, Goiânia, Salvador, Niterói, Belo Horizonte e Lima [Peru]), saíram às ruas com estes adesivos impressos do próprio bolso – ou com um financiamento coletivo – e colaram nos pontos.

Veja como essa simples ação subverteu completamente a lógica do público como do outro e a aproximou de algo seu.

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Colocar um adesivo em branco, com a pergunta “que ônibus passa aqui?“, questiona o cidadão sobre a sua real relação com a cidade. Acostumado com o estado provedor, ele tenderia a pensar: “Ué, mas não é você que deveria me dizer?“.

No entanto, ao fazer o gesto de pegar uma caneta e escrever uma seqüência com poucos números e letras, ele passa a compreender aquilo como seu também; que ele faz a cidade e tem responsabilidades sobre ela, tantas quanto o Governo que o representa.

Dentre vários depoimentos no grupo de Facebook do projeto, destaco este por considerá-lo bastante significativo:

Estava eu esperando o ônibus quando vi um senhor com uma caneta preenchendo o espaço em branco com os ônibus que faltavam e completando as informações dos ônibus que já haviam sido colocados. O senhor se mostrou muito feliz em poder ajudar, e comentou já ter sofrido dificuldades pela falta de informação. (…) Vim aqui parabenizar quem começou e quem esta ajudando na distribuição do informativo. Ações assim provam que, ao contrário do que dizem por aí, curitibano é sim comunicativo e interativo!” __ Lucas Tadeu, Curitiba

Os criadores da ideia, do grupo Shoot the Shit, disseram que a prefeitura de Porto Alegre havia gostado da ideia e iria implementá-la, mas as questões burocráticas fizeram com que o processo demorasse e nada acontecera até então. Não é exclusividade brasileira. Lembramos de uma excelente reportagem do Jornal Nacional sobre um inglês de uma cidade pequena que, cansado de ver os bancos das praças abandonados, resolveu consertar tudo com um toque artístico e virou exemplo local. Um representante do Governo explicava que, para trocar uma única madeira, eles chegavam a gastar até mil libras – e perdiam muito tempo com as concorrências públicas e burocracias. Já o cidadão, que usou madeiras reutilizadas e doadas, conseguiu resultados muito mais rápidos e mais baratos.

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Devemos entender essas atitudes não como uma substituição de um Governo incompetente, e sim como uma ação de uma sociedade auto-gestionada e organizada que demanda, executa e fiscaliza suas próprias necessidades. Desta forma, quanto melhor for o Governo, menos ele precisará fazer! Deve apenas permitir espaços para essa participação da sociedade e facilitar os processos.

Então lhe perguntamos, Fisch-pai: e se fizéssemos um mutirão para recolher o lixo de que tanto reclamamos?
E se plantássemos as árvores que sabemos que faltam em nossa cidade?
E se consertássemos os bancos que estão quebrados?

E se fizéssemos diferente?

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Saiba mais

__ Facebook do projeto Que ônibus Passa Aqui? > link
__ Faça aqui o download do adesivo
__ Depoimentos em vídeo sobre o projeto no Imagina na Copa > link
__ Shoot the Shit

Fotografias do acervo do projeto.


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