Quem tem medo dos clichês? Sagmeister e a busca pela felicidade.

Quem tem medo dos clichês? Sagmeister e a busca pela felicidade.

Confesso que não era uma grande conhecedora de Sagmeister quando soube de sua visita a Porto Alegre. O coro pela genialidade do designer-tipógrafo foi tão coeso entre meus amigos, porém, que achei irresistível ver de perto o esguio e despenteado austríaco. Um nome de palestra que beirava a auto-ajuda (“design pode te fazer feliz”) e o susto de me ver cantarolando (com toda a plateia, ok) para provar que ~cantar junto~ torna as pessoas mais alegres quase me deixou arrependida. Logo veio o contraponto: mesmo com vídeos à disposição no TED Talks e centenas de artigos na internet ainda era bom vê-lo ao vivo. Entre outras razões, para nunca esquecer que às vezes é importante abraçar os clichês e tirar o melhor proveito deles.

Reclamar não adianta. Aja ou esqueça. // Baixas expectativas são uma boa estratégia. // Todo mundo que é honesto é interessante. // Tudo que eu faço sempre volta para mim. // Manter um diário ajuda no desenvolvimento pessoal. //
~algumas das lições do Sagmeister

Capa de "Coisas que aprendi em minha vida até agora"

Pequenice: os 20 fascículos de “Things I have learned in my life so far” geram efeitos diferentes sob a embalagem da obra.

Aquele que escreveu no próprio corpo com lâminas, convenceu Lou Reed a posar com o rosto todo escrito para a capa de um disco, fez afrescos com açúcar e povoou ruas com tubos metálicos, cactos espinhentos e milhares de moedas abriu a noite dizendo que o único risco que se corre é não correr nenhum risco. Deixou claro seu argumento: não se deve temer aquele tipo de verdade da qual tantas vezes fugimos por farejar um lugar comum. Em mais de 20 anos de estúdio, seus aprendizados foram verdadeiras bandeiras, que geraram o livro ~Coisas que aprendi em minha vida até agora~. O trabalho consistiu em ilustrar 20 máximas que misturaram design, arte, psicologia e um empurrãozinho para a felicidade alheia (a frase “Não ser confiável opera contra mim”, por exemplo, virou doze imagens de uma teia de aranha que reage ao tempo até sumir). O austríaco radicado em Nova York pode até partir do lugar comum, mas o veste com uma roupa surpreendente.

// a cada 7 anos, 1 inteiro sem trabalhar

Sagmeister não tem medo de soar pessoal. E usou este tom para falar à plateia sobre mais uma de suas conclusões: a única forma de prolongar a felicidade é encontrar uma vocação. Não que baste saber qual é nosso ~chamado~ para a vida. Vocação, afinal, é uma garotinha geniosa que, se não recebe leite quente na cama, bate as portas e vai embora. Algo que Stefan sentiu na pele quando notou que até seu talento natural poderia sucumbir à rotina. No momento desta descoberta, o maior dos medos de qualquer bom designer estava prestes a acontecer: soluções semelhantes para clientes diferentes. Foi aí que ele precisou definir um novo modelo de trabalho. Antecipou alguns anos que só seriam livres na aposentadoria e assim gerou intervalos de 365 dias sem trabalho para cada 7 anos de labuta. Quando viu, havia rompido com um modo de pensar e agir. E provado, novamente, que risco mesmo é não correr nenhum.

Sagmeister 'Obsessions'

No meu padrão do dia a dia, fico tão tomado pelas minúcias que tenho pouco tempo ou discernimento para pensar sobre o contexto maior. Como eu costumava trabalhar em diferentes cidades, havia um intervalo natural entre os trabalhos, permitindo alguma reflexão. Quando cansei de estar em trânsito e optei por me estabelecer em Nova York, criei estes intervalos artificialmente tirando meu ano sabático ou dando aulas por um semestre em Berlim”
__ Sagmeister no livro ~Como ser um Designer Gráfico sem Perder a sua Alma~, de Adrian Shaughnessy.

Os anos sabáticos tornaram-se definitivos para sua felicidade – e, por consequência, a dos clientes. Concluiu que nos períodos em que fechava o escritório realizava aquilo que não poderia fazer ao longo de um ano normal de trabalho, como experimentar em profundidade novas culturas e hábitos. Isso tudo sem que nenhum cliente reclamasse. Todos os projetos dos sete anos seguintes, afinal, derivariam em algum aspecto daquele tempo longe da escrivaninha. Com o bônus de, nascidos da calma e da intuição, serem infinitamente mais criativos.

// coisas que aprendemos com Sagmeister até agora

Sagmeister 'Always'

A relação do nosso querido designer-personagem com os clichês serve de alerta para quem precisa definir os rumos de uma carreira – ou, no melhor dos casos, vocação. Transformando frases que soam óbvias em tipografias que são narrativas em si, Sagmeister prova que há riqueza naqueles ensinamentos que não raro deixamos de lado como um disco que já rodou demais. Dar um pouco mais de crédito às soluções e verdades simples pode evitar que o pensamento se perca em voltas – e, voilá!, dê espaço ao que é realmente novo. No trabalho, para ficar apenas no campo profissional, existe um tipo de ação criativa que nasce quando tocamos o mundo. E isso acontece de forma ainda mais poderosa quando a cabeça está bem resolvida com a simplicidade.

// nos livros
_ Things I have learned in my life so far , do próprio Stefan Sagmeister
_ How to be a graphic designer without losing your soul, de Adrian Shaughnessy
_ Sagmeister, de Peter Hall

// nos vídeos
_ Entrevista para o Creators Project
_ TED Talks: 7 rules for making more happiness

Linha_750px_02

Compartilhe: