Retrato em Cores de Hercules Gomes

Retrato em Cores de Hercules Gomes

Se o dia tivesse mais horas, Hercules Gomes muito provavelmente as usaria para ser também acrobata. Não do tipo circense, afinal sequer sabemos se ele é uma figura elástica. Se a vida de pianista lhe deixasse tempo para fazer o que bem entende, o músico de 33 anos cortaria o céu em manobras aéreas. Tiraria da garagem os dois aeromodelos construídos com as próprias mãos, frutos do hobby iniciado em curtos tempos de crise com a música. Seria um piloto ao piano. Ou um pianista dos ares.

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Ágil e leve ao dedilhar músicas sobre o instrumento de teclas bicolores, o capixaba se orgulha da própria ousadia na decolagem: conta que, tão logo vê o pequeno avião ganhar altura no aeroclube, vira-o de cabeça para baixo, fazendo-o sobrevoar a pista de ponta-cabeça. Algo parecido com o que realiza com as mãos, sempre surpreendentes em improvisos e virtuosismos. Pianista independente, desdobra-se em música, produção e até mesmo a venda dos álbuns – para ficar apenas no que lhe preenche a vida profissional.

No primeiro trabalho solo, lançado este ano sob o nome de Pianismo, Hercules Gomes mesclou 6 músicas assinadas por ele com o mesmo número de obras de alguns de seus compositores favoritos: Edu Lobo, Hermeto Pascoal e Ernesto Nazareth entre eles. Tem dificuldade em se classificar dentro de nichos musicais, mas tende a se aninhar para os lados da música popular quando fala em tom de acalento. E acaba por sintetizar que seu lugar é, sim, à frente do piano brasileiro. Sem ficar fechado nele, afinal gosta de voos.

Seja com o controle remoto do aeromodelo ou com o instrumento garboso de onde extrai poesia, Hercules sabe como poucos tirar os pés do chão enquanto vive em terra firme.

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// um banquinho acomodado entre o popular e o erudito

Tive meu primeiro piano aos 20 anos. Antes disso, toquei influenciado por meu pai, que é músico autodidata. Foi ele que me ensinou algumas notas no violão, as quais passei para o teclado. Minha primeira banda foi de pagode (!), aí mais tarde fui para o pop, participei de algumas escolas de bairro e depois entrei no conservatório. Nada muito formal entre os 13 e os 18 anos – aliás, no início foi tudo feito muito sozinho. Apenas depois de passar no vestibular foi que realmente comecei a estudar música.

Na Unicamp conheci o professor Silvio Baroni, que mostrou um universo de música erudita até então desconhecido pra mim. A influência dele foi tão forte que por três anos deixei de lado a música popular – pouco tempo para formar um músico clássico, mas ainda assim um período muito importante no meu crescimento. Depois de um problema com um concurso na faculdade, o Sílvio foi afastado. Foi um baque: ele tinha uma maneira diferente não apenas de tratar a música em si, mas especialmente os alunos. Conseguia fazer com que todos acreditassem em si mesmos, pois partia da premissa de que qualquer pessoa poderia tocar piano muito bem. Passei um tempo meio perdido com essa separação e então resolvi  misturar o que eu vinha fazendo em música popular com o que havia aprendido com ele.

O virtuosismo impressiona. Uma música pode ter a nota mais bonita, mas é a exploração do instrumento que ganha o público. Algo que, na música popular, às vezes não tem tanto espaço em função do estilo e do formato que se estabeleceu para ela. Comecei a pesquisar como poderia incorporar elementos de música brasileira – uma banda de frevo ou o som do maracatu, por exemplo – ao piano.

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(Hercules senta ao piano para mostrar alguns experimentos musicais e acaba fazendo malabarismo com a atenção das entrevistadoras. Elas apenas sorriem encantadas, como se para o céu olhassem em busca de manobras: enquanto fala, o pianista transforma músicas arranjadas para outros instrumentos em sons de piano. Um violão influencia a mão direita, na esquerda o dedilhar soa a bangô. Em segundos, a sala tocada por um homem só faz música com a riqueza de uma banda toda).

// artista independente e faz-tudo

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Tenho um canto do meu site onde escrevo meio sem compromisso. Há alguns dias, passava pela Avenida Indianópolis quando decidi fazer uma crônica sobre os artistas independentes. Isso porque debaixo de chuva e no meio de muito trânsito havia um cara com uma placa enorme segurando um cartaz com a frase “O combate da sogra contra o capeta: uma louca história em quadrinhos para você se divertir. 32 páginas por R$ 2,00”. Ri. E gostei ainda mais do que vinha logo abaixo: ~eu que fiz, eu que vendo~, dizia o homem. É um caso extremo que fala muito sobre a vida do artista independente no Brasil. Aqui fazemos de tudo. Mesmo quando tive apoio do Proac precisei colocar dinheiro em cima, levar piano para show. Enquanto preparava o CD estudei para caramba, dei aula, fiz gravação, cuidei da minha filha… e quando o álbum finalmente ficou pronto vi que ainda precisava divulgá-lo. Não tinha dinheiro para assessoria de imprensa e comecei a fazer tudo pela rede social, ganhando seguidores. Hoje sou produtor e ainda pianista.

(- Vocês me dão dois minutos? Tenho que ligar lá na loja de CDs porque os meus esgotaram e preciso dar um jeito de entregar um álbum para uma pessoa que me ligou depois de achar meu contato pela página na internet. É bem rapidinho, tá?) 

// casa é onde o piano mora 

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A saída do Espírito Santo foi muito difícil. Filho único, não passava nem manteiga no pão. Mamãe fazia café da manhã para um marmanjo de 19 anos. Sair de casa foi bom porque já tinha passado da minha hora – mas ficar longe da família foi muito difícil. Voltei para visitar, mas só queria voltar para tocar piano quando tivesse alguma coisa a dizer. Agora, quatorze anos depois de eu sair de casa, vou tocar na minha terra pela primeira vez no final do ano.

Não tenho o desejo de morar fora. Penso em tocar em outros países, fazer turnês europeias. Mas meus ídolos estão aqui, onde se faz música da melhor qualidade: assim não vejo sentido em ir para outro lugar fazer mestrado sobre samba só porque a universidade tem prestígio. Hoje sei que apesar de o jazz ser um estilo que influencia o mundo musical não preciso ir para os Estados Unidos. Gosto muito do que é feito no Brasil.

// entre a perfeição e o erro, acrobacias

A música tem um pouco de ânsia: às vezes tiro música de ouvido porque quero tocar logo e sai tudo errado. O CD, por outro lado, foi a coisa mais caprichosa que já fiz – algumas músicas foram elaboradas ao longo de um ano inteiro. Esse excesso de cuidado às vezes até angustia, porque quando não dá tempo tenho que fazer do mesmo jeito.

O que me impulsionou a gravar o Pianismo foi ter vencido o Prêmio Nabor Pires de Camargo em abril de 2012 (que acontece em Indaiatuba/SP e tem foco em música instrumental). Para minha surpresa, venci: eu saí da apresentação arrasado, tinha planejado arranjos muito difíceis e toquei-os no triplo do andamento por causa do nervosismo. Quando anunciaram meu nome como primeiro lugar, mal acreditei. Eu errei bastante! No fim, acho que como ninguém conhecia os arranjos eles de fato impressionaram muito. Foi um dos dias mais importantes da minha vida – e apesar disso, quando vejo o vídeo ainda fico meio inseguro por tê-lo publicado.

 (- Alô ? Oi Ricardo! Esta sexta infelizmente não poderei tocar, tenho um compromisso agendado há um mês. Mas vou te passar o telefone de alguns pianistas, espera um segundinho).

// aeromodelismo para pequenos voos 

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Eu piloto aeromodelo. Pilotava, não tenho mais tempo – estou até de licença no aeroclube. Quando morava em Campinas fiz do aeromodelismo um refúgio. Quando o Sílvio (Baroni) parou de dar aulas fiquei perdido e decidi brincar de avião. E descobri que aeromodelismo não é brinquedo, é coisa muito séria. Eu estava muito decepcionado com a música e precisava de algo. Pensei em pilotar avião de verdade mas era muito caro. Li, pesquisei e montei meu primeiro aeromodelo, logo começando a pilotá-lo. Só de asas tinha mais de 1,70 metro. Foi uma época boa e a primeira coisa que eu fiz fora da música. Aliás, quando gosto de algo não consigo parar, fico compulsivo. Gostava muito dos aviões e por causa deles gastei muito dinheiro: comprava motor, rádio, equipamentos e mais o combustível para voar toda a semana.

É uma atividade pra se fazer sozinho, meio terapêutica. De vez em quando funciona às avessas e dá raiva: quando algo quebrava, não tinha paciência para deixar tudo bonito de novo e acabava colando com durex porque queria voar logo. Aprendi a mexer em parafuso, eletrônica, marcenaria – e trouxe esses aprendizados pra casa.

( –  É difícil voar. Deixa eu pegar o rádio para mostrar para vocês. Para aprender a pilotar precisa de um avião específico, mais lento. Tem o avião acrobático também. Este que eu tenho, por exemplo, é todo de madeira, tem motor de moto, hélice específica. Não é fácil! Imagina se cai? Aqui temos vários comandos, aqui abre o carburador, aqui coloca a vela, aqui a gente acelera, aqui a gente mexe o profundor. Tem todos os comandos do avião real. Precisa de licença pra voar. Para decolagem bem feita, manobra, pouso bem feito… tem muito tempo de treino. Aeromodelismo é igual a um instrumento de música.)

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// saiba mais:

_ O site do Hercules
_ Pelos Poderes de Hercules, matéria publicada no Estadão
_ Participação no programa Metrópolis, da TV Cultura

 * entrevista e texto: Raquel Chamis | fotografias: Laura Del Rey | direção de arte: Guilherme Athayde

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