Retrato em Cores de Rafael Gomes

Retrato em Cores de Rafael Gomes

Há quem evite ao máximo as conversas vindas do coração – e quando algo deste tipo escapa à boca, logo atribui outro nome ao que é, no fim das contas, sentimento*. Pudor que não atinge Rafael Gomes, roteirista das séries de TV Louco por Elas e Tudo o que é sólido pode derreter (também dirigida por ele), redator da série 3 Teresas (exibida pelo GNT) e dramaturgo-diretor da peça Música para cortar os pulsos, entre outras tantas obras. Admirador de histórias, especialmente as de encontros e desencontros amorosos, escuta na cidade os trechos de vida que, no silêncio da casa, viram roteiro, cenas ou projetos feitos para sair do papel.

Rafael Gomes

Em um apartamento pincelado pelo entra e sai de pessoas, Rafael rabisca cadernos sobre móveis azuis e amarelos. Seus pensamentos dançam por uma sala com janela ampla e quando querem espiar a rua saem pela sacada rumo à Avenida Paulista. Na mesa próxima da estante de livros (primeiro canto a ser arrumado após a recente mudança), o autor sempre acha espaço para xícaras e amigos acomodados para longas conversas ou horas de trabalho.

Para quem elegeu a frase ~só os clichês são verdade~ como emblema, faz sentido ser acessível, macio e até simples: alguém com interesses tão múltiplos sabe que, em um mundo onde já se falou sobre tudo, o frescor de uma obra não nasce da novidade. Ele segue pensando alto até revelar que os próprios planos para o futuro passam pelo imaginário coletivo. “Tenho três grandes vontades utópicas para quando a minha vida for mais tranquila: aprender francês, tocar piano e cozinhar.” Ninguém precisa, afinal, reinventar a roda da própria felicidade.

Já nos primeiros minutos de conversa fica claro que seu trabalho mora no mesmo lugar das músicas que tanto cantarola (óperas em italiano ou trilha da Pequena Sereia estão no mesmo ato) e do pacote de sentimentos que não faz questão de esconder. Porque o lugar das falas de Rafael Gomes, dentro e fora de seus textos para a ficção, têm endereço imutável: um coração capaz de vibrar com o Rei nas curvas da estrada de Santos.

// prateleiras que guardam histórias

Rafael Gomes

Minha relação com o cinema começou por eu ser um admirador de histórias. Nunca tive um ˜momento decisivo˜ que tenha me feito pensar nisso como uma profissão. Meu pai contava histórias, meu avô contava histórias e quando era pequeno eu pedia para assistir muitas vezes a alguns filmes. Dentre eles, a Lagoa Azul – numa época em que não entendia aquele sangue todo de quando ela menstruava (achava que era um machucado).

Eu geralmente organizo os livros em ordem alfabética pelo sobrenome do autor. Agora só estão arrumados os livros de teatro, que ficam juntos nestas prateleiras. Nas caixas, guardo todos os programas das peças a que assisti.

// sobre a mesa, o caderno cheio

Rafael GomesNo meu caderno anoto diálogos comigo mesmo, avaliando e discutindo cenas. Escrevo perguntas sobre meus roteiros, encho as respostas de ~talvez~ e de ~e se…?~. “E se essa personagem engravidasse do padeiro? Não, melhor não. Talvez…”.

Quando vou para a rua levo meu caderninho e roubo alguns diálogos que escuto, como na sala de espera do dermatologista. As pessoas costumam falar por horas no celular, e daí eu fico imaginando as respostas do outro lado. Uma das minhas preferidas dos últimos dias foi uma pergunta: “Quem é você na fila do pão francês?”.

// sofá para ler o jornal…

Uma das poucas rotinas que tenho é de me esparramar neste sofá. Antes, pra ler o jornal físico; agora, pra ler no Ipad. De resto, cada dia é um dia.

… ou pensar na vida

O clichê não quer dizer que um pensamento é raso, mas que ele é acessível. Vai dizer que não gosta de ET? É muito cinismo não reconhecer que Spielberg é genial – e ele é um diretor que se comunica de forma muito simples a partir das histórias. Acho que as faculdades de comunicação induzem à formação dessa mentalidade de que algo, para ser bom, deve ser complicado e não aderir de nenhuma forma à dita cultura de massa.

Rafael Gomes

// xícaras para se encher de gente em volta                                   

xicaras antigasNão existe ser simplesmente ‘Rafael’. Quem tem este tipo de percepção artística de si mesmo ou do seu trabalho – no sentido de um isolacionismo completo, pintando quadros ou escrevendo livros em uma chácara  – me admira. Não que eu necessariamente admire alguém assim, me admira que isso aconteça hoje em dia.

Me vejo como parte de uma geração, mas não tanto no sentido temático, de querer abordar ou discutir algo porque é o zeitgeist, ou de fazer as coisas de uma determinada maneira. Pelo contrário: tenho me recusado a usar vídeo em teatro, porque seria o óbvio para alguém que vem do cinema. Sou parte da minha geração no sentido da existência, de estar o tempo inteiro com pessoas e recebendo a colaboração delas.

// a cidade e o futuro vistos da janela

É estranho falar em horizonte numa cidade como São Paulo, mas sei que aqui tenho um espaço bem maior de visão quando comparado a outros lugares. Escolhi o prédio por causa desta janela, do silêncio e do recuo que faz com que o apartamento não seja próximo da vida de ninguém. A abertura da sala me faz sentir que o pensamento circula.

Não fumo, mas às vezes gostaria de fumar só para frequentar esta sacada. Gosto da ideia de ter uma desculpa para parar tudo e sair – tanto que sempre acompanho meus amigos fumantes nestas pausas.

Rafael Gomes

Meus próximos projetos envolvem música. Tanto dois filmes que quero fazer, quanto a próxima peça, quanto uma ideia de série de TV – todos, sem exceção, envolvem música. Tem o longa Pequeno Cidadão (filme musical infantil), o projeto para longa metragem do Música para cortar os pulsos e uma série de TV que quero fazer em cima das músicas consideradas bregas ou cafonas dos anos 90 (e ele canta: “Não aprendi dizer adeeeeus, mas tenho que aceitaaaar”). Há músicas maravilhosas dessa leva sertaneja que se a Maria Bethania cantasse todo mundo acharia sensacionais. Quando ela canta É o Amor a musica ganha outra estatura. Mas o projeto mais ousado de música é uma peça inspirada na vida da violoncelista Jacqueline Du Pré, cuja dramaturgia inteira é construída sobre os movimentos de um concerto.

* “Quando as verdades saltam do coração, nós homens intelectuais lhes damos o nome-feio de confissões.” [Mário de Andrade em Amar, Verbo Intransitivo]

Rafael Gomes Doravante

// dê uma volta por alguns dos projetos de Rafael

_ 3 Teresas [série de TV]
_ Louco por Elas [série de TV]
_ Edukators [teatro]
_ Música para cortar os pulsos [teatro]
_ Tudo o que é sólido pode derreter [série de TV]
_ Música de Bolso [vídeos de música / internet]
_ Cambaio a Seco [peça] e 5 a Seco [DVD: filme+show]
_ Alice [curta metragem]
_ Arnaldo Antunes: Longe [clipe]
_ Pato Fu: Todos Estão Surdos [clipe]

entrevista e texto: Raquel Chamis | fotografias e direção de arte: Laura Del Rey

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