raquel chamis em berlim

Berlim é a capital do agora

Não quero pairar para sempre. Quero sentir um certo peso que ponha fim à falta de limite e me prenda ao chão. Gostaria de poder dizer “agora” a cada passo, cada rajada de vento. “Agora” e “agora”, e não mais “para sempre” e “eternamente.” __ Damiel, personagem de Wim Wenders em Asas do Desejo

Poucos dias de convivência com Berlim me deram a primeira lição: a capital alemã não é um lugar para se andar com leveza, pura e simplesmente. A cidade, mais do que tantas outras, pede entrega. Com menos do que isso, ninguém faz jus às calçadas que se transformam a cada dia sem jamais esquecer o que já foi vivido. “Agora” fica carimbado na pele.

berlim bolha de sabão

Berlim parece conversar com as pessoas o tempo inteiro. São grafites, rabiscos nas paredes, pequenos memoriais pela calçada. E apesar de ter tanto para contar, não se impõe: é uma cidade que fala e escuta na mesma medida. Fiquei com essa sensação pelo corpo e, na volta para casa, fui tentar entender mais sobre o lugar que havia conhecido. Encontrei algumas respostas em duas obras clássicas da década de 80: Asas do Desejo, de Wim Wenders, e O Verde Violentou o Muro, de Ignácio de Loyola Brandão. Filme e livro tratam sobre a época em que o muro causava perplexidade, mas têm bem mais em comum: cineasta e escritor assinaram dois manifestos sobre algo que explica o espírito berlinense de ontem e de hoje – o apreço pelo tempo presente.

Meia noite, rua deserta. Farol vermelho para pedestre. Nenhum carro à esquerda, rua vazia ao infinito. Diante do farol, o punk de cabelos à la índio iroquês, tintas por toda parte, cinturão com tachas prateadas. O punk espera o sinal verde na rua deserta. __ Ignácio de Loyola Brandão

asas do desejo wim wenders

Se Paris é sempre Paris, Berlim a cada retorno será outra – nos disse uma inglesa no Portão de Brandemburgo. Algo que, imagino eu, Loyola Brandão já sabia quando entre 1982 e 1983 escreveu O Verde violentou o muro. Em anotações pessoais do período que viveu em Berlim a convite da RFA (a Alemanha Ocidental dos tempos de Guerra Fria), o araraquarense somou pensamentos, cartas, poemas e até mesmo delírios que retrataram um cotidiano. Entre as páginas, cada pequeno texto carrega um convite para experimentar realidades com gosto de diário. Foram 15 meses fora do Brasil, período suficiente para Loyola Brandão firmar muito bem os pés sob o céu: assim tirou proveito dos instantes que, para quem está sem estar, passariam despercebidos.

berlimDaí que ao recolher minhas próprias historietas sobre Berlim pude finalmente entender a ânsia dos anjos de Wim Wenders em Asas do Desejo. No filme de 1987, era o excesso de vida espiritual que os esgotava. Para os personagens, sobrevoar a cidade dividida não bastava – queriam, afinal, tocar nela. O dilema era ser divino ou ser terreno, sentir ou não as dores e alegrias na cidade que não à toa foi escolhida como cenário. As texturas que vi em pleno ano de 2013 nas ruas, praças e paredes não eram as mesmas captadas pelas lentes de Henri Alekan. Mas, bem como no filme de Wenders, ainda são palpáveis. Isso porque se há algo que Berlim não modifica são suas camadas da história: jamais apaga cicatrizes. Como um anjo caído, não esquece o passado e assim valoriza a vida com ardor.

Às margens do rio Spree, a capital alemã vibra o agora entre rajadas de vento: é ali, com letreiros do artista Robert Montgomery, que Berlim explica sua forma de lidar com a passagem dos dias, anos, séculos. A obra luminosa está à frente do Kater Holzig, lugar que foi referência da cena eletrônica nos anos 90 e está prestes a mudar de endereço. Uma despedida-poema que acena para o que vem pela frente, rumo ao que vier. Caiu-me como uma luva. Talvez por isso eu tenha trazido na memória uma Berlim que se despediu de mim como um sussurro: – “Avante!”, me disse baixinho. E me fez pensar que só um lugar que vive o presente com tanta força poderia ter tão pouco medo de mudanças.

berlim rio spree Robert Montgomery

Os letreiros de Robert Montgomery

{ Para quem quiser conhecer Berlim, vale a pena desbravar o belo roteiro da designer Karen Hofstetter – ou apenas espiá-lo, se não houver plano imediato > aqui! }

Fotografias de Luísa Fedrizzi

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