Viagem de flâneur: levando o corpo aonde o sonho pede

Viagem de flâneur: levando o corpo aonde o sonho pede

Qualquer um que tenha viajado – e aqui não se trata apenas de longas distâncias – sabe que depois de deixar a casa pela primeira vez o pensamento aprende a percorrer quilômetros. Talvez porque as viagens, junto com os livros, sejam os recursos mais eficientes para desviar dos caminhos de todos os dias ou até mesmo recuperar o gosto pelo lugar onde se vive. Poucas sensações, por isso, são tão reconfortantes como a de uma viagem que se concretiza: é neste momento que imaginação e realidade voltam a ficar juntas.

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Quando se viaja para um lugar muito esperado, o corpo está onde o sonho quer. E assim, um viajante que leva os próprios desejos na mala potencializa os sentidos e, quando menos espera, começa a flanar – passeia à toa e sem rumo, com o viver no tempo presente. João do Rio, cronista que viveu entre 1881 e 1921, bem sabia definir esse estado de espírito, algo que mostrou nas linhas do livro A Alma Encantadora das Ruas:

Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. Do alto de uma janela como Paul Adam, admira o caleidoscópio da vida no epítome delirante que é a rua.”

Prestes a embarcar para Berlim, levo para lá algo que não altera em nada o peso da minha bagagem, mas por certo mudará minha experiência: a expectativa de finalmente tocar na cidade que por tantos anos construí na imaginação. Minha primeira “lembrança histórica marcante”, afinal, é do dia 9 de novembro de 1989, naquele exato ponto que por tantos anos partiu o mundo em dois. Do sofá da sala, as imagens da queda do Muro de Berlim carimbaram a menina que eu era. E me deram uma certeza: há que se derrubar, ainda que com as próprias mãos, qualquer barreira que impeça o sonho de chegar ao lugar que ele almeja.

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Diferente de outras viagens que eu já fiz, dessa vez não planejei nada – a não ser andar com meus dois amigos, sem listas de tarefas ou objetivos culturais inadiáveis: flanar, é isso que quero. Quando parei para pensar sobre o que havia mudado, percebi que hoje, mais do que nunca,  pretendo viver sem pressa a cidade que tanto já me intrigou – pelo nazismo, pelo choque entre o comunismo e o capitalismo ou pela arte transbordante.

Estar no lugar que muito se imaginou equivale a concentrar todos os sentidos no mesmo terreno, e isso dá um certo medo. Mas é assim, de coração e memória no mesmo lugar, que os sonhos tiram férias na companhia da realidade – e, com eles juntos, sobra muito mais dos dias para perceber uma cidade.

O flâneur é ingênuo quase sempre. É o eterno convidado do sereno de todos os bailes, quer saber a história dos boleiros, admira-se simplesmente, e, conhecendo cada rua, cada beco, cada viela, sabendo-lhe um pedaço da história, como se sabe a história dos amigos (quase sempre mal), acaba com a vaga ideia de que todo o espetáculo da cidade foi feito especialmente para seu gozo próprio.” __ João do Rio  

* fotografias: Laura Del Rey

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