Moby Dick, em ilustração de Odilon Moraes

Listando

Há pelo menos uns 15 anos (e este não é um número hiperbólico usado só pelo bem da expressão) minhas duas resoluções fixas de ano novo são, sempre:

1) Melhorar a alimentação.

2) Ler os clássicos.

No primeiro, há um sentido claro de futuro: uma alimentação melhor garante saúde, bem estar e longevidade, se tudo der certo.

No segundo, há um curioso olhar para trás para olhar para frente. Afinal, os clássicos são textos congelados no passado (alguns deles em um passado bem passado) mas que, presume-se, iluminam a reflexão e o espírito, funcionam como espelho da alma e nos tornam seres pensadores (e sentidores) melhores – ou pelo menos mais lúcidos –, para seguir olhando adiante. Se nada der errado.

O que é só mais uma forma de acreditar no poder redentor da Arte, todas elas. “Redentor”, “anestésico”, “distrativo”, “nutriente” – os termos podem ser muitos e em geral são, alternando-se em uma indissociável mistura.

Em suma, o que nos interessa é: ler os clássicos é muita coisa para querer. Ainda mais porque “ler”, aqui, aparece como verbo tão genérico quanto “os clássicos” pode ser uma atribuição também ela generalizante. “Ler os clássicos” de alguma forma significa também “ver” os clássicos e “ouvir” os clássicos e tantas outras abrangências.

É mesmo muita coisa para querer. É muita “doravância”, em busca do tempo perdido do passado (e do presente contínuo que passa violentamente), mirando o futuro. Esse do qual se quer tudo que há, além de ser espectador do mundo – e de todas as suas artes.

E toda resolução que se preze em geral vem acompanhada de uma retrospectiva que se preze, que em geral vem acompanhada de uma (ou várias) lista(s) que se pode prezar ou não. Porque listas objetivam a conquista. Com uma lista, “ler os clássicos” deixa de ser um pensamento flutuante e passa a ter nome. Torna-se um chamado à realidade: quais “clássicos”, meu caro?

Seja valente e dê nome aos seus objetivos” – parecem nos dizer as listas.

Então desemboco esse texto – que gostaria de ser uma crônica (como as de Antonio Prata), mas que na verdade é só uma digressão – em uma lista outra, diferente. Nem dos melhores filmes (vários) nem das melhores peças (algumas) nem das melhores músicas (poucas) que eu ouvi em 2012.

Mas dos “clássicos” (lembrando: os “clássicos” podem ter 500 ou 2 anos de idade) que eu gostaria de tirar da estante empoeirada durante o ano de 2013. Uma lista com os nomes nos quais eu deposito, imaginariamente, esperança de alegria.

Para enriquecer o devir, doravante.

Moby Dick, em ilustração de Odilon Moraes

Moby Dick, em ilustração de Odilon Moraes

1) Ler Moby Dick, de Herman Melville, Grandes Esperanças, de Charles Dickens, Anna Karenina, de Leon Tolstoi e Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Soa como projeto para uma década, mas tenho certeza que dá para ser feito em um ano, se for gasto menos tempo no Facebook. De sobremesa, alguns contos de Anton Tchekhov.

• Sugestão doravântica: procure a linda e premiada edição de Moby Dick lançada pela Cosac Naify.

2) Assistir à filmografia de Douglas Sirk, à filmografia de John Ford e à filmografia de Hong Sang-soo, como forma de fingir que frequentei as retrospectivas completas que estiveram em cartaz em anos recentes. Se não der para ver tudo, ficaria feliz com os destaques. Há, nesses caras, sentimentos para muito mais do que um ano inteiro. E, para descontrair, vasculhar todo e qualquer filme (ou material audiovisual) em que Elaine May teve algum tipo de participação.

No Tempo das Diligênciasa

No Tempo das Diligências

3) Ouvir Jorge Drexler, que é uma reivindicação antiga de um grande amigo. Ouvir Chet Baker, que é uma reivindicação antiga da sensibilidade coletiva cultivada. E descobrir todos os lados B de Gal Costa.

4) Ler, encenar imaginariamente e brincar de escalar elencos ideias para todas as peças de Edward Albee e de Tennessee Williams. E tentar aprender alguma coisa com os ensaios de David Mamet e Tony Kushner sobre teatro.

5) E já que a televisão é a nova grande arte do nosso milênio, honrar essa grande dívida com o passado recente (e com a minha profissão) e assistir à (única) temporada completa de Freaks and Geeks, às cinco temporadas de The Wire e talvez um pouco de The Sopranos. Se possível, garimpar momentos antológicos selecionados de Chico Anísio.

Feliz Ano Novo!

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